A arquitetura de poder de uma nação, quando erguida sobre alicerces movediços de crise e opacidade, revela mais do que as fragilidades momentâneas de seus líderes; expõe a deformação da própria ideia de governo justo. No Irã, a imagem do novo Líder Supremo, Mojtaba Khamenei, confinado por ferimentos e cercado pelo segredo de sua convalescença, é um espelho distorcido da autoridade. Enquanto sua voz se manifesta por cartas seladas e uma cadeia de mensageiros, a Guarda Revolucionária, com seus generais, assume as rédeas da guerra e da paz, movendo as peças no tabuleiro geopolítico global e decidindo o destino econômico de um povo.
Os fatos são claros: o ataque que feriu Mojtaba e vitimou seu pai e família precipitou uma transição de poder na penumbra. O presidente eleito, um cirurgião cardíaco, e seu ministro da Saúde cuidam da enfermidade do líder, enquanto os chefes militares da Guarda Revolucionária decidem sobre o Estreito de Ormuz e a diplomacia nuclear. Não se trata de uma delegação formal de tarefas, mas de uma assunção de controle, pelo menos “por ora”, sobre a substância do governo. Mojtaba, figura central no “triângulo do poder” que por anos coordenou operações de inteligência e militares para o pai, e com profundos laços ideológicos e pessoais com a Guarda desde a Guerra Irã-Iraque, encontra-se agora numa posição paradoxal: é o herdeiro escolhido pelo conselho de clérigos, mas sua capacidade de comando direto é eclipsada.
É possível que esta não seja uma usurpação pura, mas uma reconfiguração tática do modelo de governança. Mojtaba não é um estranho ao establishment linha-dura; ele é, de certo modo, a própria encarnação de sua continuidade, formado em seminários e forjado na guerra ao lado dos mesmos generais que hoje preenchem o vácuo de seu comando. A Guarda pode estar agindo em seu nome, alinhada à sua visão ideológica, num arranjo pragmático que garante a resiliência do regime. Contudo, a necessidade do presidente do Parlamento, Ghalibaf, de assegurar publicamente o envolvimento de Mojtaba nas decisões, revela a consciência de que, aos olhos da nação e do mundo, a legitimidade precisa de uma fachada, mesmo que o motor esteja oculto.
Essa dinâmica, porém, fere princípios basilares da doutrina social. O Papa Pio XI, em sua crítica à estatolatria, advertia contra a absorção de todas as esferas da vida social pelo poder estatal, e, por extensão, por um grupo militar que se erige acima das instituições eleitas. A marginalização de figuras como o Presidente e o Ministro das Relações Exteriores, em favor de um comando militar que decide sobre negociações de paz e o destino econômico do país, é um claro desvio do princípio da subsidiariedade. Não se fortalece o que está perto, mas se esmaga os corpos vivos da sociedade em nome de uma centralização forçada. Pio XII, por sua vez, diferenciava o “povo”, sujeito ativo de sua história e de sua comunidade, da “massa”, amorfa e passiva, manipulada por elites. Quando as decisões cruciais para o destino de uma nação são tomadas por um círculo restrito, sem transparência ou prestação de contas aos canais legítimos, o povo é reduzido a massa, e a ordem moral pública se deteriora pela falta de veracidade.
Há uma ironia amarga, à maneira de Chesterton, em observar um estado teocrático, cuja autoridade máxima é o herdeiro de uma linhagem clerical, a ser de fato governado pelos homens de farda. A sanidade política exige que a autoridade seja exercida de forma clara, visível e responsável. A situação atual, onde a liderança nominal está ferida e inacessível, e as decisões são tomadas por uma camarilha militar que desestabiliza a economia global ao fechar o Estreito de Ormuz, acarreta custos imensos. A estimativa de US$ 300 bilhões em perdas econômicas para o Irã não é apenas um número, mas a cifra da injustiça imposta a um povo sob o véu da emergência.
Seja esta uma fase temporária ou uma consolidação mais profunda, o arranjo atual no Irã representa uma deformação perigosa da ordem justa. Ele privilegia a continuidade ideológica e o pragmatismo da força militar sobre os imperativos da justiça social, da transparência e da dignidade da pessoa humana, que exige um governo accountable. A gestão de uma nação à sombra, com decisões cruciais passadas por cartas e conduzidas por generais que se eximem da plena prestação de contas, é um caminho que compromete o destino comum e a verdadeira paz.
Não há, nesta dinâmica, a grandeza da magnanimidade, mas a astúcia da sobrevivência. O destino de um país não pode ser refém da opacidade, nem a ordem internacional pode ser testada por decisões tomadas nos aposentos de um líder ferido. A verdade é que a autoridade legítima não se esconde nem se delega por conveniência, mas se exerce publicamente, em serviço à justiça e à paz.
Fonte original: O Globo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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