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Geopolítica: Instabilidade como Método Ameaça a Ordem Global

Instabilidade como método em política externa ameaça paz global. Potências hegemônicas usam imprevisibilidade, corroendo ordem, justiça, confiança. Análise sob DSI.

🟢 Análise

A vida civilizada, em seu anseio mais profundo, busca a ordem. Não uma ordem rígida e opressora, mas aquela que permite o desdobramento da liberdade e da justiça, como alicerces de uma casa onde todos possam habitar em segurança. Ora, é no mínimo um paradoxo sombrio que se proponha, no palco da política global, a instabilidade não como um risco a ser evitado, mas como um método a ser cultivado.

A tese, apresentada pelo professor Celso Pinto de Melo no Jornal GGN, sugere um cenário distópico: a política externa de um possível segundo governo Trump adotaria a instabilidade como uma técnica deliberada, rompendo com a previsibilidade que, embora imperfeita, guiou o pós-guerra. A instabilidade não mais como falha de coordenação, mas como recurso. A “geografia da pressão permanente” se desenharia com “ressurgimento de declarações” sobre aquisição da Groenlândia, “insinuações” sobre a incorporação do Canadá, ou a menção à retomada de controle do Canal do Panamá. A “Pax Silica”, como ordem emergente, seria construída sobre a concentração de minerais críticos e semicondutores, externalizando custos e reorganizando o sistema internacional sob uma “cooperação” meramente formal, mas de fato hierárquica.

É legítima a ressalva de que a instabilidade pode ser antes uma consequência de uma política externa avessa a alianças, focada em transações imediatas e no “America First”, do que um método schmittiano meticulosamente orquestrado para o caos. Contudo, essa distinção, embora válida, não exime de responsabilidade. Seja instabilidade como método ou como subproduto aceito, a disposição de um poder hegemônico em tolerar, ou mesmo fomentar, a erosão de alianças e a imprevisibilidade nas relações internacionais é, em si, um atentado contra a ordem natural das coisas. As preocupações com a soberania de nações como o Brasil, ameaçadas pela instrumentalização de classificações como “terroristas” para fins geopolíticos, ou a imprevisibilidade que pode levar a erros de cálculo por parte de outros atores, são mais do que meras apreensões políticas; são alarmes morais sobre a fragilidade da paz.

À luz da Doutrina Social da Igreja, o conceito de “instabilidade como método” se revela moralmente insustentável. Leão XIII nos ensinou sobre a liberdade ordenada e a primazia da família e dos corpos intermediários como alicerces sociais. Essa ordem não se restringe às fronteiras domésticas; estende-se à comunidade das nações, onde a justiça exige respeito mútuo, cumprimento de pactos e previsibilidade. A ideia de que a “ameaça” possa ser “linguagem de governo”, onde tarifas, declarações públicas e gestos simbólicos são usados como instrumentos geopolíticos para desorganizar, subverte a própria finalidade da diplomacia e da veracidade. A palavra dada, o acordo firmado, perdem seu peso intrínseco e se tornam meras ferramentas de pressão, minando a confiança. Pio XII, em sua crítica à massificação, alertava para o risco de reduzir povos a meros objetos de manipulação, esvaziando a ordem moral pública que deve reger as relações entre Estados e entre os próprios povos.

Aqui, a sanidade se rebela contra a “loucura lógica” da pretensão de que se pode destruir a ordem para supostamente criar uma ordem superior. É o que Chesterton talvez chamaria de a “heresia do caos criativo”, onde a destruição deliberada dos alicerces é vendida como o caminho para uma construção mais forte. Mas a verdadeira estabilidade não nasce da destruição calculada, nem da imposição unilateral de uma hierarquia forçada. Ela emerge do reconhecimento da dignidade de cada nação, da busca por um bem que transcenda os interesses imediatos e da paciente construção de confiança. Não é possível que um país, por mais poderoso que seja, se arrogue o direito de submeter a comunidade internacional a um sismo artificial para redesenhar o mapa a seu bel-prazer, sem pagar um custo moral e, em última instância, prático.

As “insinuações” sobre aquisição territorial ou o “reaparecimento” de certas retóricas, mencionadas no artigo, são mais do que meros exercícios especulativos; são sinais de uma perigosa inclinação para a arbitrariedade no cenário internacional. Não se trata de uma crítica a um nacionalismo legítimo, mas sim a uma lógica que rompe com os vínculos da solidariedade e da subsidiariedade entre nações, substituindo o diálogo pela imposição e a cooperação pela coerção velada. A paz duradoura, aquela que a reta razão e a fé nos ensinam a buscar, não se edifica sobre areias movediças da imprevisibilidade ou sobre a manipulação semântica da ameaça. Requer a solidez da justiça, a transparência da veracidade e a firmeza da fortaleza em defender princípios, não apenas interesses. A comunidade das nações tem o dever de edificar um sistema onde a liberdade de cada povo seja garantida pela ordem, e não corroída pela instabilidade fabricada.

A arquitetura da paz global não pode ser refém de engenheiros do caos. Ela exige a paciente edificação de alicerces de justiça, onde a palavra dada seja tão sólida quanto o compromisso de cada nação com a ordem que a todos beneficia.

Fonte original: GGN

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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