A febre alta exige do médico não apenas a esponja fria para baixar a temperatura, mas a busca diligente pela infecção que a causa. No cenário econômico, a inflação que flagela o bolso do brasileiro não é diferente. O governo anuncia agora um pacote de medidas que promete alívio, um bálsamo para as feridas visíveis, mas a alma da economia clama por mais que paliativos.
O Ministro da Fazenda oferece a promessa de um impacto “cirúrgico” de 0,8 ponto percentual na inflação em seis meses, atuando sobre itens como combustíveis e o endividamento familiar. Reduzir impostos e renegociar dívidas soam, à primeira vista, como a mão amiga que estende um socorro imediato a quem padece. No entanto, a mera “redução temporária” de tributos, sem um plano claro de compensação ou de enfrentamento das causas estruturais, assemelha-se mais a um curativo provisório sobre uma ferida interna do que a uma cirurgia de fato.
Aqui, o Magistério da Igreja, na esteira de Pio XI, adverte sobre a tentação da estatolatria, da crença de que o Estado pode resolver tudo com decretos e subsídios, sem a devida responsabilidade pela sustentabilidade de suas ações. A justiça intergeracional exige que o ônus das decisões presentes não seja simplesmente transferido, como um fardo invisível, para as futuras administrações e para os contribuintes de amanhã. A renúncia de receita, sem uma contrapartida transparente de corte de gastos ou de novas fontes, é um cheque assinado pelos que ainda não nasceram ou não têm voz para se opor.
Chesterton, com sua sanidade contra a loucura lógica das ideologias, denunciaria a ilusão de que se pode “resolver” um problema estrutural movendo-o para a próxima coluna do balanço. A renegociação de dívidas, embora possa ser um ato de caridade em casos específicos, corre o risco de criar um “moral hazard” se não for acompanhada de uma genuína educação financeira e de condições que previnam a reincidência. Não se pode curar a febre viciando o paciente em analgésicos.
A verdadeira responsabilidade governamental não se esgota em apagar incêndios com baldes de água emprestados. Ela exige a coragem de olhar para as raízes da inflação: os gargalos de produção, os desequilíbrios na cadeia de suprimentos e as políticas monetárias e fiscais de longo prazo. O foco em medidas que prometem alívio imediato, mas com um impacto estimado marginal de 0,8% sobre uma inflação acumulada de 5,2%, evidencia uma desproporção. A busca pela estabilidade não se dá por truques de contabilidade, mas pela paciente construção de uma economia sólida, que valorize os corpos intermediários da sociedade e a propriedade difusa, conforme Leão XIII.
O pacote econômico, em sua aparente benevolência, revela uma lógica de gestão que prioriza o sintoma sobre a causa, o agora sobre o depois. A caridade não pode ser cega à justiça. É preciso que o governo demonstre com clareza a duração exata das medidas “temporárias”, como pretende compensar a perda de receita e, acima de tudo, qual é o seu plano de longo prazo para endereçar as verdadeiras causas da instabilidade econômica. A estabilidade do lar brasileiro, fundamento da nação, se ergue sobre pilares de verdade e prudência, não sobre a areia movediça de promessas paliativas.
Fonte original: Reuters Brasil
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.