A liberdade, como toda virtude, tem seu fundamento na verdade. Não é a mera ausência de restrições, mas a capacidade de agir conforme a razão, buscando o bem real e a ordem justa. Quando um polemista se ergue para denunciar censura e assédio judicial, sua voz pode ser um farol legítimo. Mas se, no mesmo alento, ele defende a licença para negar fatos históricos comprovados e de profundo significado moral, a liberdade que ele invoca desintegra-se em licença para o erro, subvertendo os próprios alicerces da convivência humana.
O debate recente, protagonizado pelo presidente nacional do PCO, Rui Costa Pimenta, ilustra a complexa tensão entre a defesa intransigente da liberdade de expressão e a irrenunciável exigência da verdade. Pimenta, ao denunciar uma “campanha sionista” e de imprensa para silenciar críticas a Israel, aponta para uma preocupação legítima: a influência desproporcional de lobbies e o uso de mecanismos legais para cercear vozes dissonantes. No entanto, a defesa de que “os crimes cometidos pelo nazismo possam ser discutidos e até negados” não é uma tese aceitável em nome da liberdade. O Holocausto, com seus milhões de vítimas e sua documentação histórica maciça, não é uma “opinião” a ser debatida, mas um crime contra a humanidade que exige memorialização, condenação e uma busca incessante por justiça. A negação de tal atrocidade não é exercício da razão, mas uma violência contra a memória das vítimas e um combustível perigoso para o antissemitismo, uma ofensa que São João Paulo II chamou de “pecado contra Deus e contra a humanidade”.
A Doutrina Social da Igreja, alicerçada em São Tomás de Aquino, ensina que a liberdade não se opõe à verdade; antes, nela encontra sua plena realização. A verdade liberta, a mentira aprisiona. Conforme Pio XII, o “povo” se distingue da “massa” pela sua capacidade de julgamento crítico e pela busca da verdade. Negar o Holocausto, mesmo que disfarçado de “debate”, é confundir o povo com a massa, alimentando um relativismo que desintegra a capacidade de discernimento moral e de condenação universal do mal. Ao estabelecer uma falsa equivalência entre a negação de um genocídio historicamente estabelecido e a suposta “negação” do genocídio em Gaza (um evento contemporâneo cujas qualificações estão sob intenso e legítimo debate internacional), o polemista enfraquece sua própria causa. A condenação das atrocidades deve ser consistente e baseada na veracidade dos fatos, sem instrumentalizar sofrimentos passados para justificar agendas presentes.
É vital, sim, questionar a influência de grupos de pressão, a cobertura midiática tendenciosa e o aparelhamento de instituições estatais. As denúncias de corrupção sistêmica no Congresso, de vazamentos da Polícia Federal para forçar delações ou de plataformas financiadas pelo Estado para monitorar discursos são problemas graves que afetam a justiça e a ordem moral pública. A Igreja sempre defendeu que a família precede o Estado e que a liberdade de associação e expressão são essenciais para uma sociedade saudável, conforme ensinado por Leão XIII. O uso do aparato jurídico para “assédio judicial” contra opositores é um abuso que mina a confiança na lei e no Estado de Direito. No entanto, a legítima denúncia de tais desvios não pode ser pretexto para desmantelar a própria noção de verdade histórica ou para promover teorias da conspiração que minam a capacidade de qualquer ação política construtiva.
A sanidade, como Chesterton nos lembra, reside em manter-se fiel ao real, mesmo quando a “lógica” das ideologias tenta torcer a realidade. Uma civilização que perde a capacidade de reconhecer o mal evidente em sua própria história está fadada a repeti-lo. Defender a liberdade, portanto, exige antes de tudo a virtude da veracidade: a honestidade intelectual de reconhecer o que é e o que não é. A verdadeira batalha pela liberdade de expressão não é a licença para falsificar a história, mas a corajosa busca por uma ordem justa onde a verdade possa ser livremente dita e os crimes, passados e presentes, sejam devidamente nomeados e condenados.
Sem a verdade como bússola, a liberdade se transforma em errância, e a justiça em mera conveniência dos mais fortes. A reconstrução moral-cultural de uma nação começa pela coragem de não ceder à tentação de reescrever o passado para justificar o presente, mas de se firmar nos fatos para edificar um futuro onde a liberdade seja, de fato, libertadora.
Fonte original: Diário Causa Operária
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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