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Governança Chinesa: Retórica e Realidade do Poder do PCC

A governança chinesa do PCC promete "confiança no povo" e não-hegemonia. Este artigo expõe as contradições entre essa retórica e a realidade da liberdade e justiça na China.

🟢 Análise

A recente publicação de “China: Tradição e Modernidade na Governança do País”, de Evandro Menezes de Carvalho, traz à tona um debate essencial sobre a natureza do poder, da autoridade e da relação entre governantes e governados. O livro, fruto de uma imersão profunda e premiada na cultura e política chinesas, oferece um panorama das particularidades do regime do Partido Comunista Chinês. Contudo, a análise da governança chinesa, com suas promessas de “confiança no povo” e sua retórica de não-hegemonia, exige um escrutínio que vá além da superfície da autoafirmação para perscrutar a realidade moral e institucional que se esconde sob essa fachada.

O professor Carvalho descreve uma governança que se autodenomina “chinesa com características socialistas”, onde o Partido lideraria, mas não governaria, e onde a revalorização do Confucionismo sob Xi Jinping sinalizaria um enraizamento em valores tradicionais. A narrativa de um desenvolvimento impressionante, com foco na unificação do país e na elevação da condição do povo, pinta um quadro de um modelo peculiar, quase isolado em sua funcionalidade, um “socialismo que talvez só funcione aqui mesmo”. Essa visão tenta persuadir de que a China, em vez de buscar hegemonia global, estaria focada em um destino interno, renovando a esperança para aqueles que buscam um caminho próprio de desenvolvimento.

A primazia da veracidade nos impõe, porém, uma cautela diante de descrições que, por mais bem-intencionadas, obscurecem a distinção fundamental entre o que se declara e o que se opera na prática. Como se pode falar em “confiança no povo” quando a dissidência é sistematicamente silenciada, a liberdade de expressão tolhida e a imprensa controlada? A instrumentalização do Confucionismo – uma filosofia rica e multifacetada que, em sua essência, poderia inspirar a crítica ao poder e a busca por um governo virtuoso – para legitimar um regime de partido único, esvazia-o de sua potência reflexiva e o reduz a mero ornamento ideológico. Pio XII já advertia que o “povo” não pode ser reduzido a uma “massa” amorfa, manipulada por um poder central; a verdadeira confiança nasce da liberdade de consciência e da participação genuína.

Em matéria de justiça, o modelo apresentado também revela suas fendas. A alegação de que “o partido lidera, mas não governa” entra em choque direto com a realidade de mais de 100 milhões de membros do PCC infiltrados em todos os níveis da sociedade e do Estado, garantindo a implementação das diretrizes partidárias. O sistema “Guanxi”, reconhecido pelo próprio professor como algo que favorece os bem-conectados, corroi a meritocracia e a igualdade de oportunidades, plantando as sementes de uma corrupção sistêmica que transcende as meras disputas internas. Aqui, a crítica de Pio XI à estatolatria se faz presente: quando o Estado (ou o Partido) se torna um fim em si mesmo, ele esmaga os corpos intermediários da sociedade e aniquila a justiça social verdadeira, transformando o cidadão em súdito de uma engenharia social total.

A tese de que a China “não quer ser um poder hegemônico no século 21”, focada apenas na “unificação do país” (com Taiwan até 2049), é um paradoxo que Chesterton apreciaria em sua ironia amarga. A busca por unificação, potencialmente pela força, e a crescente assertividade militar no Mar do Sul da China, somadas à projeção global da Iniciativa do Cinturão e Rota, desenham um quadro de influência e poder que, se não é uma hegemonia no molde ocidental clássico, é certamente uma afirmação de primazia que não se contenta em ser meramente nacional. A sanidade, como diria Chesterton, consiste em ver as coisas como elas são, não como as ideologias as pintam, e a lógica de um poder tão centralizado raramente se limita a fronteiras autoimpostas.

É preciso, portanto, olhar para a China com a complexidade que lhe é devida, sem cair na tentação de idealizações ou condenações simplistas. O desenvolvimento material é inegável, mas a que custo se constrói? O verdadeiro progresso de uma nação não se mede apenas por sua capacidade econômica ou por sua estabilidade interna forçada, mas pela garantia da liberdade ordenada, pela participação política de um povo verdadeiramente livre e pelo respeito à dignidade da pessoa humana em todas as suas dimensões. Uma sociedade verdadeiramente justa e um poder legítimo florescem onde a verdade é buscada e defendida, não onde é instrumentalizada ou silenciada.

A lição mais profunda a ser tirada, não da China em si, mas da reflexão sobre a China, é que a verdadeira esperança e um futuro de paz não podem ser edificados sobre os alicerces frágeis da coerção e da narrativa conveniente, mas sobre a rocha inabalável da liberdade e da justiça para todos.

Fonte original: Revista Fórum

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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