Quando a bússola política aponta para direções opostas, é o próprio sentido da ordem que se perde. Nos turbulentos cenários atuais, onde a desilusão com o establishment fermenta, surgem vozes que prometem um resgate, muitas vezes, por vias que, em vez de endereçar a confusão, a aprofundam. A candidatura de James Fishback ao governo da Flórida, um republicano de 31 anos, insere-se neste contexto, buscando fisgar uma Geração Z farta de narrativas antigas, mas o faz com uma plataforma que se contradiz em seus fundamentos mais básicos.
Ele se apresenta como um outsider, prometendo “tirar o governo de muitas das indústrias que estão impedindo o crescimento”, o que, à primeira vista, poderia evocar o princípio da subsidiariedade e a defesa da liberdade econômica ordenada, como advogado por Pio XI e Leão XIII. O descontentamento com o custo de vida e a busca por soluções para a estagnação salarial são, de fato, preocupações legítimas que ressoam na juventude. Contudo, essa retórica de “menos governo” se desintegra quando confrontada com suas propostas sociais. A mesma mão que promete libertar a economia da interferência estatal é a que pretende regular, com mão de ferro, a vida pessoal e as escolhas mais íntimas dos cidadãos.
A defesa de que mulheres tenham filhos mais cedo e “com frequência”, alinhada à agenda natalista da ultradireita, bem como a proposta de um “imposto do pecado” para plataformas como o OnlyFans, que as tornaria “economicamente inviáveis”, são exemplos dessa contradição. A Doutrina Social da Igreja reconhece a família como célula fundamental e a fecundidade como um bem, mas jamais advoga pela coerção estatal na vida reprodutiva. A dignidade da pessoa humana e a verdadeira liberdade ordenada implicam um espaço para decisões pessoais que o Estado deve apoiar, não ditar. Taxar uma forma de sustento até a proibição, mesmo que a atividade seja moralmente questionável para alguns, é uma intervenção excessiva que atropela a liberdade de trabalho e a responsabilidade individual, transformando a subsidiariedade num autoritarismo social disfarçado. A proposta de Fishback, com sua linguagem (“as putas vão ter de pagar impostos”), não busca a virtude pela persuasão, mas pela penalização econômica, violando a justiça e a temperança que se esperaria de uma política pública.
Mais grave ainda é o modo como a campanha se enreda em acusações de racismo e antissemitismo. O uso de termos como “escravo” para um rival negro ou “goyslop” para a merenda escolar, ainda que o candidato se declare “a pessoa menos antissemita” que conhece, carrega um peso histórico e uma conotação que não podem ser ignorados. A afirmação de que a discriminação estrutural nos EUA “ficou no passado” e que “não há lei hoje que favoreça um grupo sobre outro” é um atentado à veracidade e à justiça. Nega-se a persistência de desigualdades sistêmicas amplamente documentadas, minando qualquer esforço para uma solidariedade real e a reparação de injustiças históricas. A verdade não é um fardo a ser descartado, mas o alicerce de toda construção política honesta.
As propostas migratórias, de banir vistos de trabalho temporário e de deportações “com dignidade”, carecem de um juízo prudencial. Embora o Estado tenha o direito e o dever de controlar suas fronteiras, políticas que desconsideram o contributo de imigrantes qualificados ou que prometem uma “dignidade” sem explicar como ela se concilia com deportações massivas, revelam mais um flerte com slogans do que com soluções concretas e justas. A retórica da “masculinidade em crise”, embora possa tocar em anseios genuínos de sentido, desvia a atenção de fatores socioeconômicos complexos, atribuindo-a a “narrativas” e polarizando o debate.
Um projeto político que se constrói sobre uma liberdade econômica desacompanhada de responsabilidade social consistente e que propõe um controle estatal pesado sobre a vida privada, enquanto nega a realidade das desigualdades, padece de uma incoerência fatal. Não se pode criticar o “establishment” por sua falta de aderência à realidade e, ao mesmo tempo, propor uma visão que viola os princípios mais elementares de justiça e subsidariedade. A fortaleza da vida pública exige coragem para enfrentar a complexidade, honestidade para nomear as injustiças persistentes e magnanimidade para construir uma sociedade onde a liberdade ordenada floresça, não onde ela é entregue de forma seletiva. Uma cidade bem ordenada se constrói não com retóricas que se contradizem, mas com a verdade que liberta e a justiça que eleva.
Fonte original: Folha de S.Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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