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Fatalismo Político: Lula, Dilma e a Memória Seletiva

A projeção do passado no futuro político do Brasil é um fatalismo. Este artigo critica a analogia entre Lula e Dilma, exigindo prudência, justiça e subsidiariedade na governança e nos corpos intermediários.

🟢 Análise

Quando a cena política se transforma em palco de oráculos, a tentação de projetar o passado no futuro é quase irresistível. Olhamos para a história, não como mestra de lições complexas, mas como um espelho deformado onde a próxima tragédia já está escrita. A analogia entre um possível quarto mandato do presidente Lula e o turbulento segundo período de Dilma Rousseff, embora carregada de preocupações legítimas sobre a governabilidade e o desgaste político, padece de um determinismo histórico conveniente, pintado com as tintas da memória seletiva de quem foi protagonista central de tais eventos.

Não se pode ignorar, com efeito, os desafios reais de um Congresso fragmentado, com alto poder de barganha, ou a necessidade premente de gerenciar as expectativas populares sob o risco de um rápido esvaziamento do capital político. A intrincada relação entre Executivo, Legislativo e Judiciário, especialmente o Supremo Tribunal Federal, é um ponto de tensão constante, e qualquer tentativa de usurpar competências ou “partidarizar” instituições é um atentado à justiça que sustenta a república. As decisões sobre a política econômica, a Selic e a inflação, e a própria sustentabilidade fiscal e social, são encargos pesados que recaem sobre os ombros de qualquer governo e que exigem prudência máxima, não malabarismos retóricos ou fiscais.

Contudo, a tese que prevê um colapso inescapável ignora uma realidade mais complexa. Um juízo reto exige mais do que a mera superposição de calendários passados. A habilidade política de um líder, as alianças reconfiguradas pós-crises anteriores, e o próprio aprendizado institucional — ainda que lento e doloroso — podem alterar o curso dos acontecimentos. Reduzir as decisões do STF a “partidarização” ou as ações do Banco Central a “politicagem da política monetária” sem provas cabais é cair no risco de deslegitimar a autonomia de corpos intermediários essenciais à ordem social e ao equilíbrio de poderes, esvaziando a subsidiariedade que fortalece o Estado.

A Doutrina Social da Igreja, ao falar da ordem profissional e dos corpos intermediários, enfatiza que a autoridade legítima não pode operar como uma máquina solitária, esmagando as prerrogativas dos demais elos da sociedade. O Poder Executivo deve respeitar o Legislativo em sua função de fiscalização e elaboração de leis, e o Judiciário em sua interpretação final. Quando o poder central tenta minar a independência dessas instâncias, seja por meio de pressões políticas ou por uma retórica que as desqualifica, a estrutura da república se enfraquece, e a liberdade ordenada se vê comprometida.

As acusações de que uma eleição foi vencida com um “gol de mão”, especialmente vindo de quem presidiu o processo de impeachment daquela mesma vitória, revelam uma inconsistência na própria narrativa que busca legitimar o passado enquanto condena o futuro. Tais narrativas, ao invés de análises objetivas, servem mais à justificação de ações pretéritas ou à projeção de desejos futuros. O verdadeiro governante é aquele que, com honestidade e visão de longo prazo, busca a ordem justa e a paz social, não o acúmulo de “benesses” para comprar votos, nem a perpetuação de um ciclo de “nós contra eles” que fratura a nação.

A complexidade do Brasil exige que a política seja exercida com um discernimento político que transcende a mera vingança ou a repetição de velhos roteiros. O que o futuro exige dos líderes é a capacidade de discernir o princípio permanente do que é aplicação contingente, de equilibrar a liberdade individual com a ordem social, e de resistir à tentação de trocar um problema por outro, uma dependência por outra. A verdadeira força não reside em prever catástrofes, mas em edificar com firmeza os alicerces de uma vida comum digna para todos.

A teia da república, em suas interconexões e tensões, não é um mero palco para fatalismos anunciados, mas um campo onde a virtude deve se fazer presente. A maturidade política de uma nação se mede pela capacidade de seus líderes em, com justiça e prudência, aprender com as quedas sem cair na tentação de um revanchismo cíclico.

Fonte original: Poder360

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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