O Brasil tornou-se um palco onde a farsa da segurança pública compete, palmo a palmo, com a tragédia real do crime. Em vez de uma luta épica contra um “estado paralelo”, como muitos imaginam e vendem em promessas eleitoreiras, a realidade é mais nefasta: assistimos a uma profunda, quase orgânica, imbricação entre a máquina estatal e o crime organizado. É um fenômeno que corrói os alicerces da ordem social e moral, obscurecendo a verdade e distorcendo a justiça que o povo clama.
Os avanços, quando ocorrem, são pontuais, modestos e isolados – como ilhas de excelência na Polícia Federal, na Polícia Rodoviária Federal após seu reaparelhamento, ou em algumas unidades do Ministério Público. Mas essa diligência de alguns não pode ser cortina de fumaça para o quadro geral. O debate público, salvo raras e honrosas exceções, costuma se afogar em diagnósticos simplificadores, operações policiais de visibilidade fabricada e bravatas políticas. Governos e polícias, por sua vez, transformam “saldos operacionais” em marketing institucional, sem prestar contas sobre a real efetividade, custos ou fins. A verdade é que o crime organizado no Brasil é uma economia política em rede, itinerante, translocal, que opera por nódulos funcionalmente especializados e articulados entre si, sem um comando centralizado fácil de identificar, reconfigurando-se continuamente e dependendo estruturalmente do Estado para sua constituição.
Essa relação simbiótica não é negligência, mas frequentemente uma “escolha” política, uma perversa “coadministração territorial” onde o Estado se faz presente de forma seletiva, negociada e por vezes conivente. Os mitos do “estado ausente” ou “estado paralelo” convenientemente ocultam essa interface promíscua. Há um gargalo de mentalidade que impede a compreensão de que o crime se organiza dentro e a partir das relações com o Estado; gargalos normativos que produzem leis populistas e limbos jurídicos que protegem a cúpula político-criminal; e gargalos administrativos que impedem a responsabilização e a governabilidade sobre os meios de força. A proliferação de carreiras eleitorais, alimentadas pelo caixa dois do crime organizado, é a lavanderia que blinda essa articulação.
Nesse cenário de opacidade, surge a proposta de classificar organizações criminosas como terroristas. A “etiqueta terrorista”, longe de ser um avanço no combate, é marketing político com consequências reais e perigosas. Ela tende a deslocar o foco investigativo para aspectos superficiais e espetaculares, protegendo os verdadeiros nódulos financeiros, políticos e jurídicos da governança criminal. Mais revelador ainda é a exclusão das milícias dessa classificação. As milícias são a expressão mais acabada da relação polícia-política-crime, com governos criminais produzidos de dentro da máquina estatal, dotados de lastro político-eleitoral, proteção institucional e capacidade de conversão de poder coercitivo em poder econômico e eleitoral. É a prova de que o Estado, em sua versão deturpada, não combate, mas “regula” o crime.
Contudo, a denúncia precisa ser temperada pela justiça e pela veracidade. A tese de uma imbricação tão profunda entre Estado e crime, embora necessária, não pode ser lida como uma relativização da brutalidade e da extorsão que as organizações criminosas impõem às comunidades. Isso seria ignorar a agência maligna do criminoso e a dor das vítimas, desmobilizando a demanda legítima por uma ação estatal eficaz. Há agentes de segurança e do Ministério Público que, com probidade e coragem, dedicam-se genuinamente ao combate ao crime. O povo, massa e não povo em virtude da ausência de instituições justas, tem o direito inalienável à segurança e à proteção contra a violência. O Estado não pode, nem por “escolha política”, abdicar de seu dever primordial de garantir a ordem e proteger a vida. O exemplo de Bukele em El Salvador é citado como o Estado monopolizando o crime; a questão é como e com que moralidade se dá esse monopólio. A justiça não aceita a troca de uma desordem por um controle autoritário que silencia e reprime o povo em vez de libertá-lo.
A solução não reside na retórica vazia, nos slogans de “mais preparo, mais tecnologia, mais inteligência” sem fins claros, nem em classificações que desviam o foco. O caminho é a reconstrução moral e institucional do Estado, alicerçada na veracidade. Isso implica reconhecer a profundidade da infiltração, desvelar os interesses eleitoreiros e criminais que se retroalimentam, e reconstruir as instituições com transparência e responsabilidade. É preciso fortalecer os corpos intermediários, a família, e a comunidade, para que o poder não seja monopolizado nem pelo crime, nem por um Estado centralizador que apenas “regula” a violência. Precisamos de conselhos escola-família-comunidade que atuem pela base, de uma transparência curricular que forme a consciência cívica e de institutos de virtude que moldem a moralidade pública, como ensina a Doutrina Social da Igreja sobre o princípio da subsidiariedade.
A ordem justa não se ergue sobre simulacros de guerra nem sobre a maquiagem de estatísticas, mas sobre a coragem da verdade e a firmeza da justiça, erguendo alicerces para um Estado que sirva ao povo, e não ao crime.
Fonte original: Brasil 247
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.