A administração pública, em sua essência, é como um delicado trabalho de contabilidade. Cada investimento, cada reforma, cada concessão lançada ao futuro deve ser devidamente registrado, não apenas em números frios de orçamento, mas no balanço do impacto real sobre a vida das pessoas. Quando um analista arguto aponta o Espírito Santo como um “laboratório da política neoliberal”, criticando a subordinação do Estado a interesses empresariais e a retórica do “estado mínimo” para os direitos sociais, ele levanta uma preocupação legítima sobre a concentração de poder e a soberania popular. É uma advertência que ecoa a crítica de Pio XI à estatolatria, quando o Estado, ou o capital que o seduz, pretende usurpar o lugar de Deus e do bem da cidade.
No entanto, um olhar responsável e magnânimo sobre essa contabilidade social não pode se deter apenas nos custos e nos riscos. A própria análise factual reconhece que, nesse mesmo Espírito Santo, houve “melhorias na modernização da economia, sociedade, máquina estatal e vida política”, com “avanços na redução da pobreza absoluta e queda na pobreza relativa”. Ignorar ou minimizar essa parte do balanço é incorrer num reducionismo, talvez involuntário, que obscurece a complexidade do desenvolvimento e a `responsabilidade` de sopesar todos os resultados, os esperados e os imprevistos. A verdadeira `honestidade` intelectual exige que se admita que, por vezes, medidas de disciplina fiscal ou a atração de investimentos privados — características das políticas criticadas — podem ter contribuído, direta ou indiretamente, para o alívio da miséria e para a melhoria de índices sociais.
A denúncia do “terrorismo econômico” e do “silêncio planejado” da imprensa sobre os gastos públicos e a dívida, ainda que com um tom hiperbólico, aponta para uma falha real: a falta de transparência e de um debate público robusto sobre a alocação de recursos. Projetos como o PARKLOG ES e o Peduc (Programa Estadual de Desenvolvimento Sustentável das Unidades de Conservação), que promovem parcerias público-privadas e concessões de parques, são decisões prudenciais de grande envergadura. Elas não podem ser gestadas à margem de uma participação social plural e heterogênea, e muito menos sem avaliações de impacto ambiental públicas e isentas. O governo, em sua `responsabilidade` para com o destino comum, deve zelar pela vida e pelos bens que a sustentam, e não apenas pela eficiência de mercado.
Aqui, a Doutrina Social da Igreja nos lembra que o Estado não é um mero síndico de condomínio, como ironicamente descrito, mas uma instância de serviço ao bem de todos, um guardião da ordem moral pública. A legitimidade de privatizações e concessões não reside em sua mera existência, mas em sua conformidade com a justiça social e com a destinação universal dos bens. É preciso que tais políticas fortaleçam os corpos intermediários da sociedade e não esmaguem as iniciativas locais, cultivando uma verdadeira `solidariedade` entre os cidadãos e as instituições.
O Espírito Santo, então, não é apenas um “laboratório de experimentação neoliberal”, mas uma tela complexa onde as políticas de governo se entrelaçam com a vida concreta de seu povo. A tarefa do polemista, do cidadão e do gestor é discernir entre o que é ideologia e o que é resultado, entre o que é manipulação e o que é um esforço, ainda que imperfeito, em prol do progresso. A crítica é vital, mas para ser eficaz, precisa de uma `magnanimidade` que enxerga o quadro completo, e de uma `responsabilidade` que oferece não apenas denúncia, mas alternativas viáveis e que sustentem o avanço humano.
O desafio reside em construir uma via de `responsabilidade` política que vá além das simplificações ideológicas. Uma via que reconheça os méritos onde existem, denuncie as injustiças sem esvaziar a esperança, e exija a máxima `honestidade` na gestão dos bens públicos e na apresentação dos fatos. O destino de um povo não se decide em rótulos, mas na dedicação incansável a uma ordem que seja justa, sustentável e digna para todos.
Fonte original: GGN
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.