Quando um médico se propõe a diagnosticar os males do corpo político, a nação se volta com uma esperança compreensível. Augusto Cury, reconhecido por sua pena em desvendar os labirintos da alma, agora projeta-se como pré-candidato à Presidência, prometendo ser o “porta-voz da pacificação nacional” com uma “mente capitalista e coração social”. A ambição, em si, não é desonrosa; todo cidadão virtuoso almeja a saúde da comunidade. Mas a verdadeira sabedoria não reside apenas no diagnóstico da doença, mas na prescrição de remédios que curam sem envenenar, que constroem sem demolir o que já é sólido. É aqui que a retórica, por mais bem-intencionada, deve ceder lugar à sobriedade dos princípios e à complexidade do real.
A preocupação com a pacificação e a ordem institucional é, sem dúvida, legítima. O país padece de polarização e de uma percepção de instabilidade. Entretanto, as soluções apresentadas pelo pré-candidato para o Supremo Tribunal Federal — fim da vitaliciedade, idade mínima para ministros, e a transferência da escolha para associações de classe — são de uma radicalidade que, sob o manto da “oxigenação”, pode abalar os alicerces de um poder essencial à República. É fácil criticar o “superpoder” ou a “espetacularidade do voto”, mas a Doutrina Social da Igreja sempre insistiu na importância de uma ordem jurídica estável e legítima, onde os poderes são contidos e equilibrados, mas não desfigurados em nome de uma suposta eficiência. A `justiça`, neste campo, exige não apenas a correção de vícios, mas a preservação da forma institucional que garante a liberdade ordenada.
O mesmo se aplica à proposta de anistia para os envolvidos nos atos de 8 de janeiro. Embora o desejo de “generosidade” seja humano, a `justiça` não se coaduna com a amnésia institucional. A anistia, para ser justa e não um mero aceno político, deve ser um ato de profunda reflexão sobre a culpa e a reparação, e não um perdão generalizado que relativize a responsabilidade por atos contra a ordem democrática. O risco é que, em nome de uma pacificação superficial, se erosione a memória e a retribuição devida, abrindo precedentes perigosos para o futuro. Uma nação não se cura esquecendo-se de suas feridas, mas tratando-as com a verdade e a devida disciplina.
A insistência de Cury na “saúde mental” como chave para quase todos os problemas sociais — do desemprego juvenil à evasão escolar, da economia ao crime — revela um perigoso reducionismo psicologista. Problemas estruturais complexos, como os “oito milhões de jovens que não trabalham nem estudam”, demandam mais do que “gestão de si mesmo” ou “clubes de empreendedores” em igrejas e escolas. Conforme ensina Pio XII, o Estado deve servir o “povo”, não reduzir seus cidadãos a uma “massa” a ser psicologicamente manipulada ou tutelada. Exige-se um discernimento que identifique as causas eficientes e formais da desordem social, que geralmente são econômicas, educacionais e morais, e não meramente psicológicas. Um Estado que abdica de sua função de promover a `justiça social` através de políticas robustas, delegando tudo à “saúde mental” individual, falha em sua vocação. O solidarismo cristão, por exemplo, prega o fortalecimento de corpos intermediários e a propriedade difusa, mas sempre com o Estado garantindo as condições para que esses corpos floresçam e a equidade seja buscada.
A crítica ao “rentismo” e a promessa de reduzir a taxa Selic para patamares entre 4% e 6%, embora soem atraentes para muitos, carecem de uma `prudência` econômica robusta. A ingenuidade de propor intervenções macroeconômicas sem um plano detalhado para conter a inflação, garantir a estabilidade fiscal e manter a confiança dos mercados revela uma desconsideração perigosa pela complexidade da economia real. É preciso mais do que um “coração social” para lidar com a intrincada relação entre juros, investimento, dívida e credibilidade internacional. A solução para o “vício em rentismo” não está em decretar juros baixos, mas em construir uma economia de produção e valor agregado, com responsabilidade fiscal e um ambiente de negócios que valorize o trabalho real, conforme a lição de Pio XI sobre a `justiça social` e a justa ordenação do trabalho e do capital.
O paradoxo da “mente capitalista com coração social” de Cury, como observaria Chesterton, reside na busca por uma síntese que, na prática, pode se revelar uma pulverização. Em vez de uma integração orgânica, as propostas flertam com o autoritarismo na busca pela pacificação, a superficialidade na resolução dos problemas sociais e a irresponsabilidade na gestão econômica. A `humildade` intelectual exige que se reconheça a complexidade do Brasil e que as grandes reformas não se fazem com base em intuições generalistas ou diagnósticos psicológicos, mas com profunda reflexão moral, técnica e um respeito inegociável pela ordem constitucional e pelos corpos vivos da sociedade. A verdadeira pacificação nacional não é um apagamento de conflitos, mas a construção paciente de uma `ordem moral pública` que capacite o `povo` a discernir e a construir seu destino com `justiça` e `veracidade`.
O convite de um pré-candidato para reformar o país, portanto, deve ser recebido com a seriedade que o ofício de governar exige. Não basta ter um bom coração ou uma mente prolífica; é preciso ter clareza doutrinária e robustez prudencial para que as soluções não se tornem parte do problema. A nação não necessita de um pai de autoajuda, mas de um governante capaz de edificar a casa comum sobre o firme rochedo da lei, da `justiça` e da `humildade`, e não sobre as areias movediças de uma psicologia aplicada à política.
Fonte original: Correio Braziliense
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.