A arena política, ao contrário de um consultório terapêutico ou de uma prateleira de best-sellers, não é um palco para a projeção de intenções grandiosas, por mais bem-intencionadas que sejam. Ela exige a dura arte do governo, a paciência da edificação e o realismo do pedreiro. É neste contexto que surge a pré-candidatura de Augusto Cury, um psiquiatra e escritor de sucesso, que, com a popularidade de mais de trinta milhões de livros vendidos, propõe-se a “elevar a régua do debate” presidencial. Sua plataforma, que inclui a mediação de conflitos mundiais entre nações em guerra e a erradicação da fome global com fundos de importações e vendas de armas, contrasta bruscamente com a sua incipiente votação nas pesquisas e a vasta complexidade da realidade nacional e internacional.
A legitimidade de um debate político elevado nunca pode ser desprezada. É uma preocupação reta, pois o espaço público não deve ser sequestrado por chavões ou pela mera emoção. Contudo, a sabedoria política, que São Tomás de Aquino chamou de prudência, não se confunde com um idealismo abstrato ou com a transposição acrítica de métodos da psicologia para a governança de um Estado. A “pacificação de conflitos” interpessoais, objeto de livros e palestras, possui uma lógica distinta da realpolitik que move as nações, seus interesses estratégicos e a soberania dos povos. Um presidente brasileiro, por mais honrosa que seja a sua intenção, não detém a capacidade de arbitrar unilateralmente entre Putin e Zelensky, ou de resolver a fome mundial com um fundo percentual, sem reconhecer a intrincada malha de causas estruturais, logísticas e políticas que sustentam tais flagelos. A humildade intelectual exige que se reconheça a ordem das causas e os limites da própria autoridade.
A Doutrina Social da Igreja, desde Leão XIII, ensina que a liberdade ordenada e a justa atuação do Estado são fundamentais para o bem da cidade. Não se constrói uma sociedade justa com a simples força de um carisma pessoal, nem com a promessa de um Estado “enxuto e eficiente” que, ao mesmo tempo, seria capaz de atuar como árbitro global e solucionador de todos os males. Essa dualidade, que mescla uma mente liberal com um coração social sem detalhar a mecânica de como se dá o necessário casamento entre os dois, pode soar mais como um apetitoso paradoxo retórico do que como um plano de governo com juízo reto. A crítica à “estatolatria”, tão presente em Pio XI, nos alerta contra a tentação de depositar no Estado — ou na figura do líder — a solução para todos os problemas, como se a administração pública fosse um simples palco para a manifestação de um “salvador”.
As propostas para a reforma do Judiciário, embora apontem para problemas reais como a vitaliciedade, correm o risco de minar a justiça institucional. Sugerir que “dois terços teriam que vir da magistratura” e, quem sabe, “até pelo voto público”, para o Supremo Tribunal Federal, não garante maior independência; ao contrário, pode politizar ainda mais a Corte, desvirtuando sua função de guardiã da Constituição e da ordem jurídica. A prudência política exige um entendimento profundo dos mecanismos constitucionais de freios e contrapesos, evitando soluções que, na ânsia de corrigir um problema, criem desequilíbrios ainda maiores ou comprometam a segurança jurídica.
A própria estratégia de campanha, que se propõe a ser “100% projetos, 0% ataques” e “elevar a régua do debate”, entra em contradição aparente com a contratação de um marqueteiro que explicitamente valoriza a emoção sobre a razão nas eleições. Como Chesterton bem observou, a sanidade política muitas vezes reside em não abraçar a loucura lógica de ideologias ou de promessas que desconsideram o chão da realidade. A construção de uma campanha baseada na emoção, por mais que angarie adesão, dificilmente “elevará a régua” se não estiver ancorada na veracidade dos fatos e na viabilidade das propostas. A recusa ao fundo partidário, embora possa parecer um gesto de idealismo, contrasta com a laboriosidade e o realismo necessários para edificar uma estrutura política capaz de sustentar um projeto de governo para um país continental.
No fim das contas, a presidência da República não é um posto para quem “não ama o poder”, mas sim um cargo que exige magnanimidade e uma responsabilidade imensa na sua administração. A boa intenção, por si só, não edifica cidades, nem pacifica nações em conflito. A verdadeira construção da vida política, que serve ao bem da cidade e busca a ordem justa, demanda um discernimento político acurado, um conhecimento prático da coisa pública e uma humildade profunda diante da complexidade do real.
A edificação de uma nação forte e justa não se faz com castelos de nuvens, mas com a solidez de alicerces bem lançados e o trabalho incessante de quem conhece os materiais, as ferramentas e os limites do ofício.
Fonte original: Terra
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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