Há discursos que, por sua contundência e por seu contexto, se impõem como peças de teatro político. O púlpito de um encontro internacional, onde a palavra se arma de solidariedade, pode ser um palco poderoso para narrar dramas e denunciar opressões. Em Havana, o chanceler cubano Bruno Rodríguez Parrilla desenhou um retrato pungente de sua ilha, um Davi perene sob a mira de um Golias imperial, denunciando o bloqueio americano, a guerra digital e as ameaças militares como causas de todos os males. E, de fato, a história do pequeno país sob sanções do gigante vizinho é uma epopeia de resistência que não se pode simplesmente desconsiderar, pois há um clamor de um povo que se vê, há décadas, na mira de pressões externas.
A voz de Havana ressoa com a gravidade de um país que se vê historicamente sitiado, e não há como negar a realidade de um bloqueio que perdura por mais de seis décadas. As 243 medidas coercitivas adotadas desde 2019, a retaliação tarifária contra exportadores de combustível, as declarações belicosas atribuídas a um ex-presidente americano — tudo isso compõe um cenário de pressão real e tangível que afeta diretamente a vida do povo cubano. A Doutrina Social da Igreja sempre condenou a imposição de sanções que sufocam a vida civil e impedem o desenvolvimento humano integral, especialmente quando afetam bens essenciais como saúde e alimentação. O direito de um povo à autodeterminação, à soberania sobre seus recursos e à defesa de sua cultura e regime político, livre de ingerências externas desmedidas, é um princípio de justiça que se eleva acima das disputas ideológicas. Leão XIII, em sua Rerum Novarum, já apontava a primazia da família e dos corpos intermediários sobre o Estado, e por extensão, a primazia da nação sobre a ingerência de potências externas que sufocam sua liberdade ordenada.
No entanto, a virtude da veracidade exige mais do que um olhar unidirecional. A narrativa de Cuba, apresentada com a precisão de um roteiro bem ensaiado, corre o risco de se tornar uma lente única que distorce a complexidade do real. São Tomás de Aquino nos ensina que toda causa produz seu efeito, e raramente um fenômeno complexo tem uma única causa. A justiça não é servida quando a totalidade da culpa é projetada para fora, ignorando a agência e as escolhas políticas e econômicas do próprio regime. Ser vítima de uma injustiça externa, por mais real que seja, não absolve um governo de suas próprias responsabilidades internas.
A insistência de Havana em colocar a culpa exclusiva nas sanções americanas silencia as preocupações legítimas sobre a ausência de pluralismo político, as limitações às liberdades civis, a questão das propriedades expropriadas e a gestão econômica centralizada. O Corpus Guide lembra a crítica de Pio XI à estatolatria e a importância da subsidiariedade. Um regime que controla rigidamente a informação, mobiliza a população em demonstrações “espontâneas” e reprime a dissidência interna, como apontam observadores independentes, também cria suas próprias barreiras ao desenvolvimento e ao bem-estar de seu povo. A dependência contínua de importação de combustível, a despeito de riquezas minerais e terras aráveis, sugere que as escolhas internas de priorização e gestão também pesam na balança. O Estado, por mais que se defenda de ameaças externas, não pode esmagar os corpos vivos da sociedade em seu afã de controle.
Aqui, a sanidade de um Chesterton poderia nos lembrar que a lógica mais ferrenha pode, por vezes, beirar a loucura. Não é razoável supor que um regime que se diz forte e autossuficiente não tenha de prestar contas por suas próprias decisões e suas consequências. A “guerra cognitiva” e a “incitação à violência”, embora possíveis táticas modernas, também podem servir de justificativa para um controle férreo sobre o acesso à internet e à informação, privando os cidadãos do discernimento necessário para formar juízos livres e independentes. A verdadeira resistência não se mede apenas pela capacidade de suportar o assédio externo, mas pela coragem de cultivar a liberdade e a responsabilidade dentro de casa.
A cena em Havana é, assim, um espelho multifacetado. De um lado, revela a face cruel de uma política externa que, por vezes, atenta contra a autodeterminação dos povos e afeta severamente a vida de milhões. De outro, expõe a face de um regime que, ao centralizar todo o poder e silenciar vozes dissidentes, impede o florescimento de uma sociedade verdadeiramente livre e próspera. O desafio para Cuba, e para aqueles que genuinamente desejam sua prosperidade, é o de reconhecer que a liberdade ordenada exige tanto a defesa da soberania contra agressões externas quanto o respeito incondicional pela dignidade e pelos direitos dos indivíduos e das comunidades que compõem a nação. A autodefesa, inclusive com armas, como mencionado pelo chanceler, não pode ser um pretexto para desarmar a população de sua capacidade crítica e de sua liberdade de expressão.
A verdadeira paz para Cuba não virá apenas da suspensão do bloqueio, mas também da abertura do regime a uma maior participação e liberdade para seu próprio povo. Um povo só é verdadeiramente soberano quando é livre em sua própria terra.
Fonte original: Brasil 247
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.