Há promessas que pesam como pedras no espírito de um povo, especialmente quando o chão sob os pés se mostra movediço. Na Colômbia, à beira de uma eleição presidencial que poderia selar a continuidade de uma agenda, o debate não se resume a plataformas de governo, mas mergulha na dura realidade do que foi semeado e do que, de fato, se colheu. A bandeira de uma “Paz Total”, por mais nobre que seja, choca-se com um relatório factual inquietante: homicídios em alta, grupos armados duplicando seus membros e plantações de coca atingindo patamares históricos.
A visão de um Estado onipresente, que centralizaria a saúde e reorganizaria a economia, encontra no Congresso colombiano um limite intransponível. A reforma da saúde, após mais de um ano de discussões, foi arquivada – não por falta de vontade, talvez, mas por falha em construir pontes e respeitar as realidades dos corpos intermediários que compõem a sociedade. Aqui, a Doutrina Social da Igreja, particularmente na voz de Pio XI, adverte sobre os perigos da estatolatria, da pretensão de que o poder central possa resolver todas as mazelas, sufocando a iniciativa e a capacidade de organização da sociedade civil. O princípio da subsidiariedade, que ensina a fortalecer o que está perto em vez de esmagar os corpos vivos da sociedade, permanece um guia para a edificação de uma ordem justa.
Não se pode ignorar que o governo cessante apresentou avanços pontuais em indicadores econômicos, como a redução da pobreza e o aumento do salário mínimo. Nem se nega a formalização de terras na reforma agrária ou as grandes apreensões de cocaína. Mas esses êxitos, por mais meritórios que sejam, perdem seu brilho quando confrontados com o cenário geral de desordem. O narcotráfico não é um problema de pequenas roças, mas de redes complexas, e a segurança não se constrói apenas com gestos, mas com uma autoridade legítima e eficaz que saiba restaurar a ordem moral pública, como insistentemente apontava Pio XII ao distinguir o “povo” da “massa” inerme diante do caos.
A urgência da hora exige mais do que narrativas bem-intencionadas; exige um juízo reto sobre a eficácia das políticas. Se a promessa é de paz, mas a realidade é de violência crescente e impunidade, então a estratégia falhou em sua aplicação concreta. A honestidade intelectual impõe a admissão de que o caminho percorrido, apesar das alegadas boas intenções, não conduziu ao porto desejado. É preciso que os líderes, ao proporem a continuidade, demonstrem a humildade de reconhecer os pontos fracos e a fortaleza de propor soluções que efetivamente enfrentem a raiz do problema, e não apenas seus sintomas ou suas representações midiáticas.
Neste cenário de complexidade e contradições, a eleição na Colômbia é um chamado à lucidez. Os colombianos não buscam um messias retórico, mas gestores capazes de instaurar a justiça que precede a paz, de fortalecer a ordem para que o povo possa florescer em liberdade. A dignidade da pessoa humana não prospera em meio à insegurança, à ameaça constante de grupos armados ou à ineficácia do Estado em garantir serviços essenciais. A tarefa primária de qualquer governo é assegurar a vida, a propriedade e a liberdade de seus cidadãos, alicerces sem os quais qualquer projeto de justiça social se torna uma casa construída sobre a areia movediça.
A Colômbia merece mais do que a retórica da paz enquanto o solo se encharca de sangue. Merece um governo que se debruce sobre o real com a justiça de quem sabe que a ordem se constrói passo a passo, e a humildade de quem admite que nem todo caminho prometido conduz ao fim desejado.
Fonte original: Correio do Estado
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.