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Gestão Pública em Brasília: O Vazio entre Crítica e Ação

Pré-candidatura em Brasília critica gestão e demanda transparência. Analisamos o discurso político, questionando se a indignação sem planos concretos é suficiente para os desafios do DF.

🟢 Análise

Brasília, cidade forjada na audácia e na geometria da esperança, não pode ser reduzida a uma mera máquina administrativa. Seus 66 anos de existência, contados recentemente, deveriam ser um convite à reflexão sobre a solidez de suas fundações, e não um mero pretexto para lamentos. É nesse palco de expectativas e desilusões que surge uma pré-candidatura, prometendo a “boa nova” da transparência e da gestão responsável, apontando o dedo para aquilo que, de fato, clama por justiça: o descaso com o dinheiro público e a desatenção às necessidades mais elementares do povo.

A pré-candidata Paula Belmonte, em sua exposição, vocaliza uma série de preocupações legítimas que ressoam no coração de qualquer cidadão: a qualidade dos serviços públicos de saúde e educação, a falta de infraestrutura que obriga adolescentes a comerem em escadas e pacientes a serem atendidos no chão. Essas não são meras picuinhas políticas; são feridas abertas no tecido social, testemunhos de uma administração que, detendo um dos maiores orçamentos do país, parece gastá-lo em algo que não é o bem da cidade. A exigência de transparência, especialmente em temas como a alegada “maior fraude financeira” no Banco de Brasília (BRB) e a opacidade dos seus balanços, endossada inclusive pelo rebaixamento da nota pela Fitch, é um imperativo de veracidade que não pode ser escamoteado. A coisa pública exige clareza solar, e a gestão dos bens comuns não admite sombras.

Contudo, a indignação, por mais justa que seja, não pode substituir a clareza do projeto. Acusar uma “máquina desgovernada” e lamentar a “falta de gestão e responsabilidade” é um diagnóstico que, ainda que pertinente, se esvazia na retórica se não for acompanhado de um plano de cura detalhado. É um paradoxo, diria Chesterton, que se condene a falta de transparência alheia com uma profusão de denúncias que, elas próprias, carecem de dados concretos e planos de ação pormenorizados. A política, para ser reta, não se move apenas por indignação ou por promessas de “boa nova”, mas pela virtude da justiça, que exige um cálculo moral preciso e propostas operacionais que transformem o lamento em obra.

Quando se fala em combater a “polarização” política, mas se apoia um candidato nacional conhecido por seu estilo combativo e, por vezes, polarizador como Ciro Gomes, a retórica começa a chiar. A busca por uma governança “não polarizada” não pode ser uma abstração ideológica que se furta à realidade da composição política. O que se espera, e o que a boa doutrina social da Igreja sempre exigiu, é que a aliança seja feita em torno de princípios e meios que visem ao bem comum e à ordem justa, não em torno de um vago ideal de moderação que pode, na prática, esconder a ausência de um programa. Não basta não ser “um dos polos”; é preciso ser um norte claro e coerente. Pio XI, ao criticar a estatolatria, advertia que o Estado não deve se expandir para além de suas capacidades, tornando-se paquidérmico e ineficiente, mas deve antes fortalecer os corpos intermediários da sociedade. Um governo que se diz moderno e eficiente não pode se contentar em trabalhar com planilhas de Excel ou com sistemas que não se comunicam; deve antes apresentar uma arquitetura de gestão robusta e digitalizada.

O destino de Brasília, portanto, não se decidirá apenas pela veemência da crítica à gestão passada ou pela promessa de uma “boa nova” genérica. A cidade que se pretendia exemplar, berço de uma nova esperança para o país, exige dos seus candidatos a grandeza de alma e a honestidade intelectual de traduzir a indignação em ação concreta. A verdadeira “boa nova” para o Distrito Federal só virá de um governo que demonstre, não apenas a capacidade de apontar as feridas, mas a coragem e a competência de curá-las com propostas sólidas, transparentes e coerentes, um governo que saiba que a gestão de uma casa não se faz apenas com bons discursos, mas com a diligência e a verdade que edificam a vida em comum.

Fonte original: Correio Braziliense

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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