Os canais que ligam as nações, por vezes, mais se assemelham a rios subterrâneos, cujas correntes, se desviadas, podem corroer as fundações da confiança entre os povos. Foi precisamente essa a cena que se desenrolou entre Brasil e Estados Unidos, com a detenção e posterior liberação do ex-deputado Alexandre Ramagem em solo americano. A versão brasileira, ainda que difusa, apontou para uma cooperação. A contraparte americana, porém, por meio do Departamento de Estado, não hesitou em classificar a atuação de um delegado brasileiro como “manipulação” do sistema migratório, com o claro intuito de “perseguição política”. A expulsão do delegado Marcelo Ivo de Carvalho pelos EUA, e a retaliação brasileira com a expulsão recíproca de um americano, selaram o que muitos veem como apenas mais um “ciclo de atrito”.
Essa leitura, que reduz o incidente a um mero sintoma de “desencontro político” entre as administrações, embora contenha parte da verdade, obscurece a gravidade do que realmente está em jogo: a veracidade dos atos de Estado e a justiça nas relações internacionais. Não se trata apenas de um desalinhamento de humores presidenciais, mas de uma questão de integridade procedimental e moral. Se a acusação americana de “manipulação” e “perseguição política” tem fundamento, então o que se rompeu não foi apenas um laço diplomático, mas a própria ordem moral pública que deve governar a interação entre nações soberanas e seus agentes.
O Magistério da Igreja, na esteira de Pio XII, já alertava sobre a diferença crucial entre “povo” e “massa”. O povo, enquanto comunidade organizada em busca de um bem comum justo, exige governantes que ajam com retidão e transparência. A massa, por outro lado, é suscetível à manipulação e à instrumentalização por interesses faccionais. Quando agentes estatais são acusados de deturpar canais formais de cooperação para objetivos que se aproximam da perseguição política de um indivíduo, mesmo que de relevância política, estamos diante de uma instrumentalização que corrompe a dignidade do Estado e a confiança que este deveria inspirar. A “cooperação”, quando não balizada pela verdade e pela boa-fé, torna-se um mero eufemismo para ações de bastidor, opacas à luz da razão e da lei.
A reciprocidade, embora um gesto soberano esperado no xadrez diplomático, não resolve a questão de fundo. Não basta expulsar um funcionário estrangeiro para lavar a alma das instituições. O verdadeiro saneamento exige clareza sobre os fatos: houve, de fato, a manipulação alegada? Os canais de cooperação foram deturpados? E se sim, por que e com que autorização? A falta de uma posição formal transparente por parte do governo brasileiro sobre a conduta de seus agentes em solo estrangeiro, contrastando com a veemência da acusação americana, deixa uma lacuna perigosa para a especulação e a desconfiança. É na ausência de veracidade que se instaura o caldo da guerra cultural ilegítima, onde a verdade é a primeira vítima.
O risco é que incidentes como este se tornem a norma, erodindo não só as relações bilaterais, mas a própria capacidade das nações de combater crimes transnacionais por meio de uma cooperação legítima e confiável. A instrumentalização de processos de segurança para fins políticos, seja qual for o lado que a pratique, é um veneno para a ordem internacional e para a vida comum. A justiça exige que a liberdade ordenada seja respeitada em todas as esferas, e que a autoridade legítima não se curve a desígnios partidários em detrimento da ética na conduta pública.
A verdadeira estabilidade não se constrói sobre as areias movediças de disputas veladas ou da ausência de fatos. É imperativo que os governos restabeleçam não apenas um diálogo de cúpula – embora importante –, mas, acima de tudo, a clareza e a retidão nos canais formais de cooperação. A diplomacia, quando desprovida de transparência e ancorada em pretextos, é um exercício fútil. A restauração da confiança entre as nações exige a redescoberta da veracidade como alicerce e da justiça como método.
Fonte original: Jornal de Brasília
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.