O ato de lembrar, sobretudo em datas marcadas a ferro e sangue na história, não é um passatempo trivial, mas um rito sagrado. Erguem-se monumentos não apenas para glorificar a vitória, mas para honrar a memória dos que caíram, para que o passado, com suas lições e cicatrizes, ilumine o presente. Em Berlim, onde jazem os restos de milhares de soldados soviéticos que derramaram seu sangue para esmagar o nazismo, o Dia da Vitória deveria ser um tempo de silêncio reverente e de justa recordação. Contudo, a recente proibição de símbolos russos e soviéticos nas comemorações de 2026, estendendo-se a bandeiras, uniformes e até marchas, transforma a memória em campo de batalha política e o passado em refém do presente.
A inteligência da fé ensina que a verdade, histórica ou moral, não pode ser moldada à conveniência do dia. A contribuição da União Soviética para a derrota do Terceiro Reich não é objeto de disputa, mas um fato maciço e inegável, inscrito com as vidas de dezenas de milhões. O sangue derramado para libertar a Europa do jugo nazista é uma dívida de justiça que não prescreve, e a honra devida aos mortos transcende as fronteiras ideológicas e as inimizades contemporâneas. Negar a um povo e a seus descendentes o direito de expressar o luto e a gratidão por esse sacrifício, vinculando-o indiscriminadamente aos desmandos de um governo atual, é uma falha grave contra a veracidade histórica e a própria ordem moral pública.
É compreensível que um Estado soberano, como a Alemanha, busque salvaguardar a ordem e evitar a instrumentalização de eventos públicos para a propaganda de uma guerra em curso. A guerra na Ucrânia é uma tragédia que exige condenação e ação. Entretanto, a sanidade política e moral exige uma distinção clara entre a conduta de um regime e a memória coletiva de um povo. Como observava Chesterton, a loucura lógica de certas ideologias reside justamente em sua capacidade de, buscando uma pureza ou coerência abstrata, negar a realidade concreta e complexa que nos cerca. Aqui, a tentativa de isolar a propaganda atual corre o risco de, inadvertidamente, apagar ou minimizar a memória de uma vitória essencial contra um mal maior, alimentando paradoxalmente a própria narrativa de revisionismo histórico que se tenta combater.
Quando a memória dos heróis e mártires de outrora é subjugada à geopolítica de agora, os riscos são profundos. Comunidades inteiras, que veem nos símbolos soviéticos não a bandeira de um regime totalitário, mas a insígnia de uma luta heroica contra o fascismo, são alienadas e silenciadas. A piedade devida aos antepassados, o reconhecimento de um patrimônio de sofrimento e triunfo, não pode ser criminalizada por decreto. O Estado tem o dever de manter a segurança, sim, mas não o de reescrever o cânone cultural ou os ritos públicos de reverência por um capricho do calendário político. Pio XII alertava sobre a diferença entre o “povo”, com sua identidade e memória históricas, e a “massa”, amorfa e facilmente manipulável. A proibição em Berlim corre o risco de reduzir o povo a uma massa, cujas memórias podem ser censuradas.
A verdadeira prudência política, que aqui se traduz em um discernimento sagaz, não reside em impor um amnésia seletiva, mas em fortalecer a memória em sua complexidade. É possível condenar a agressão do presente sem profanar o sacrifício do passado. A honra aos soldados que lutaram contra o nazismo é um alicerce da paz na Europa, uma lembrança do custo do totalitarismo e da necessidade de vigilância perene. Ao tentar silenciar uma parte da história, mesmo com as melhores intenções de segurança, corre-se o risco de ferir a própria integridade da memória e da reconciliação.
A batalha da memória não se vence com proibições que confundem passado e presente, mas com a firmeza da verdade. Que Berlim, cidade que carrega as marcas indeléveis de uma guerra terrível, saiba distinguir o sacrifício imenso de milhões da agenda de um regime, honrando a todos os que combateram o nazismo. Pois a verdade, mesmo quando incômoda aos cálculos do poder, é a única fundação para uma paz duradoura e uma justiça que se estenda através das gerações.
Fonte original: Diário Causa Operária
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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