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Zema e o Estado: Ultraliberalismo e Seus Riscos Sociais

Romeu Zema defende ultraliberalismo para o Estado, com privatizações, trabalho infantil e ataque ao STF. Avaliamos os riscos de sua agenda para a soberania e justiça social no Brasil.

🟢 Análise

A lâmina afiada, em mãos hábeis, pode salvar uma vida; em mãos açodadas, pode ceifá-la. A promessa de “passar a faca” no Estado, ecoando discursos estrangeiros de impacto, seduz pela aparente simplicidade, mas o que se propõe como cirurgia, muitas vezes arrisca a ser carnificina. Romeu Zema, ao empunhar o cutelo do ultraliberalismo e da repressão iliberal, aposta numa terapia de choque que desconsidera as delicadas anatomias da nação.

A economia não é um monólito inerte. A privatização indiscriminada de estatais como Petrobras e Banco do Brasil, embora possa agradar a dogmas de mercado, ignora o papel estratégico dessas instituições na soberania e no desenvolvimento nacional, sua função social e reguladora. A fé cega em um ajuste fiscal de dez trilhões de reais, prometido em duas décadas por mero corte e privatização, é uma abstração perigosa. Despreza a complexidade de um país que, ao contrário da Argentina de Javier Milei, não vive um colapso de trinta anos, mas necessita de reforma inteligente e justa, calcada na justiça distributiva e na prudência das transições, para evitar que o remédio seja mais letal que a doença. Leão XIII já nos alertava sobre a propriedade com função social, e Pio XI, sobre os perigos da estatolatria, mas também sobre a necessidade de corpos intermediários e de uma economia que sirva ao homem, não o contrário.

Mais grave ainda é a defesa do trabalho infanto-juvenil, justificada pela falácia de que “a esquerda criou a noção de que trabalhar prejudica a criança”. Tal afirmação é uma vergonha que agride a veracidade dos fatos e a dignidade da pessoa humana. A proteção da criança e do adolescente contra o trabalho precoce não é ideologia, mas conquista civilizatória, universalmente reconhecida como direito fundamental. Privar uma criança de sua infância, de sua educação e de seu pleno desenvolvimento é negar-lhe o futuro, comprometendo não apenas sua vida, mas a própria sustentabilidade moral e intelectual de qualquer sociedade que se pretenda justa e próspera. É um retorno a uma barbárie que a Igreja sempre condenou.

A mesma cegueira para a complexidade se revela na proposta de importar o modelo de segurança pública de Nayib Bukele de El Salvador. Embora o combate ao crime seja dever do Estado, a repressão que atropela garantias individuais e direitos humanos não é solução duradoura, mas semente de novas injustiças e ressentimentos. Um Estado que se faz tirano para combater a tirania do crime organizado falha em sua vocação mais alta: a de guardião da ordem e da misericórdia devida mesmo aos culpados, respeitando o devido processo legal. A ordem moral pública, defendida por Pio XII, não se ergue sobre pilhas de cadáveres ou prisões superlotadas sem o crivo da lei, mas sobre a restauração da justiça e o respeito à pessoa.

Por fim, a retórica do confronto sistemático com o Supremo Tribunal Federal, ao pintar os ministros como “intocáveis de Brasília” e atacar decisões judiciais sob o pretexto de “defender a democracia”, fragiliza as instituições democráticas. A estabilidade de uma República não se constrói deslegitimando um dos Poderes, mas zelando pelo sistema de freios e contrapesos. A humildade intelectual exige que se reconheça a complexidade do direito e a necessidade de diálogo, não de guerra aberta. A harmonia entre os poderes é essencial para a saúde da pólis, e sua corrosão é um preço alto demais a pagar por ganhos eleitorais efêmeros.

A busca por um Brasil mais eficiente e seguro é legítima e necessária. Mas a ferramenta para essa construção não pode ser o cutelo de um açougueiro, mas o bisturi de um cirurgião, guiado pela temperança e pela reta razão. Um programa de governo deve ser pautado em princípios permanentes de justiça, subsidiariedade e solidariedade, adaptados à realidade brasileira, e não na importação acrítica de modelos estrangeiros ou na exaltação de soluções simplistas que, no fim das contas, prometem prosperidade pela via da desagregação. A verdadeira coragem está em discernir o que deve ser cortado, o que deve ser fortalecido e o que, por ser vital, deve ser preservado e cultivado com todo o esmero.

Fonte original: Correio Braziliense

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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