A arte de governar, quando reduzida à gestão de percepções, transforma a edificação da paz em um mero teatro político. É neste palco de conveniências que Washington parece ensaiar sua próxima peça sobre o Irã: a retomada de ataques militares ou a encenação de uma “declaração de vitória”. Ambas as opções, segundo revelações recentes, são moldadas mais pela pressão política doméstica do que pela verdade dos fatos ou pela real busca por uma ordem justa.
A ideia de “declarar vitória”, após uma ofensiva que viu o Irã recuperar equipamentos e o Estreito de Ormuz seguir parcialmente bloqueado, é um oxímoro político. Não se trata de uma paz conquistada, mas de uma narrativa construída para consumo interno. As agências de inteligência, nesse contexto, são postas a serviço não de uma avaliação estratégica imparcial, mas da legitimação de uma saída que “pareça” vitoriosa. Esta é a triste evidência de um governo que, segundo as pesquisas de opinião, vê sua aventura militar rejeitada pela maioria dos americanos – um cenário onde o “povo”, cansado da guerra, é confundido com a “massa” a ser iludida por um espetáculo de triunfo, na distinção luminosa de Pio XII.
Ao mesmo tempo, a possibilidade de retomar ataques, sob o pretexto de “segurança nacional” e “não proliferação nuclear”, é uma espada de Dâmocles que serve mais para manter a pressão e disfarçar a ausência de um plano coerente. O bloqueio do Estreito de Ormuz, que sufoca o fluxo de petróleo global e encarece a vida dos cidadãos comuns, é uma chaga aberta que a retórica belicista não pode curar. A soberba de cancelar abruptamente missões diplomáticas e exigir que o adversário “entre em contato se quiser negociar” não é um sinal de força, mas de uma fragilidade que confunde imposição com negociação. A fortaleza de um estadista não se mede pela rigidez da pose, mas pela tenacidade em buscar soluções justas e duradouras, mesmo que impopulares no curto prazo.
Aqui, a Doutrina Social da Igreja ergue-se como um farol contra a névoa dos cálculos eleitorais. A paz, definida não como mera ausência de guerra, mas como a tranquilidade da ordem, é um bem moral que transcende os calendários políticos. A consideração de “ganhos eleitorais” em um contexto de guerra não é apenas cínica; é uma subversão da autoridade legítima, que existe para o bem da cidade e não para a autoperpetuação de quem a governa. É uma forma de “politicolatria”, onde a administração governante se torna um ídolo cujos interesses e imagem se sobrepõem à vida dos cidadãos, à estabilidade global e à justiça exigida por um conflito tão complexo.
Chesterton, com sua sanidade mordaz, provavelmente apontaria o paradoxo: buscar a paz ao mesmo tempo em que se impõe uma retórica de “vitória” unilateral é como tentar apagar um incêndio com gasolina. A loucura de se enganar, ou de tentar enganar os outros, sobre a realidade de uma situação, mina a base de qualquer acordo futuro. A veracidade não é apenas uma virtude individual; é a moeda de troca em qualquer negociação que almeje durar, o cimento da confiança entre nações. Sem ela, a diplomacia vira mero jogo de máscaras, e a estabilidade internacional, um castelo de areia.
A escolha diante de Washington não é entre duas estratégias igualmente válidas, mas entre a perpetuação de um conflito movido por conveniências políticas e a busca corajosa por uma paz fundada na veracidade e na fortaleza. Não há atalhos retóricos para a resolução de crises internacionais complexas. O caminho é longo, exigirá diálogo paciente, reconhecimento mútuo de preocupações legítimas e uma disposição genuína para transcender o cálculo imediato. Uma paz duradoura exige mais que a retórica da vitória; exige a honestidade brutal de reconhecer a complexidade do real e a justiça de buscar soluções que sirvam a todos, não apenas aos cronogramas eleitorais.
Fonte original: globo.com
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.