O próprio fundamento de uma república não repousa apenas em suas leis escritas ou na força de suas instituições, mas no substrato invisível da confiança mútua e da veracidade pública. É sobre esse solo que o voto, a expressão soberana de um povo, edifica a legitimidade do governo. Quando um ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reitera acusações de fraude generalizada na eleição de 2020, sem apresentar as provas consistentes que a Justiça exaustivamente buscou e não encontrou, ele não apenas questiona um pleito específico; ele investe contra a própria arquitetura da fé cívica.
As críticas direcionadas ao Partido Democrata, a figuras como Chuck Schumer e Eric Holder – este último contratado para iniciativas de “integridade eleitoral” – são apresentadas como prova de uma conspiração para “desestabilizar” o país. Contudo, a alegação de fraude maciça na eleição de 2020 foi objeto de múltiplas auditorias, recontagens e dezenas de processos judiciais em diferentes instâncias, inclusive na Suprema Corte, sem que nenhuma evidência substancial fosse comprovada. A contratação de um ex-procurador-geral para iniciativas de integridade eleitoral, por si só, não configura uma tentativa de desestabilização; é, ao contrário, um ato que, na sua intenção declarada, visa fortalecer o processo. A confusão deliberada entre uma intenção legítima (fortalecer a integridade) e uma acusação grave (desestabilização) revela uma retórica que prefere a contaminação da desconfiança à luz fria dos fatos.
É inegável que a integridade, transparência e segurança dos processos eleitorais constituem uma preocupação fundamental para qualquer democracia que se preze. A polarização política e a desconfiança nas instituições são desafios reais que exigem atenção. Mas a virtude da veracidade exige que tais preocupações sejam abordadas com seriedade e com base em provas concretas, e não através de uma retórica que instrumentaliza a inquietação popular para fins meramente partidários. A insistência em narrativas de fraude sem lastro factual é um veneno para a ordem pública, pois mina a adesão racional à realidade.
Essa postura, que tenta mobilizar um segmento do povo transformando-o em massa – como alertava Pio XII, consciente dos riscos da manipulação do sentimento coletivo sobre a razão individual –, corrói o respeito devido às instituições. A exigência de “dureza” por parte do Partido Republicano, ou o apelo para o fim do filibuster no Senado visando a aprovação de “salvaguardas” eleitorais antes das eleições de meio de mandato, revela uma intenção que se sobrepõe ao debate prudente sobre a lei e as práticas legislativas. O que se propõe é uma guerra política total, onde as regras do jogo podem ser alteradas à força para garantir a vitória, em vez de buscar o consenso necessário para a ordem moral pública. O ex-presidente não está apenas pedindo uma estratégia, mas um alinhamento incondicional a uma narrativa.
A liberdade ordenada, tal qual nos ensina Leão XIII, exige que a ação política se submeta à reta razão e à justiça. Não se trata de blindar o sistema de críticas legítimas, mas de assegurar que o escrutínio se dê dentro dos marcos da lei e da verdade. A Justiça exige que os resultados de um processo eleitoral conduzido segundo as normas estabelecidas e verificado pelos devidos ritos legais sejam respeitados. Deslegitimar de forma contínua um processo democrático, sem evidências, não é fortalecer a integridade eleitoral, mas sim semear o caos e o conflito fratricida. A sociedade necessita de pontes de diálogo e solidariedade entre seus membros, não de um aprofundamento das fissuras que a dividem, comprometendo a dignidade da pessoa humana.
O verdadeiro desafio à democracia americana não reside em uma fraude eleitoral sistêmica comprovada, mas na facilidade com que alegações infundadas podem corroer a confiança pública e polarizar a nação. A insistência nessas narrativas é um atentado contra a veracidade e a piedade cívica, esta última sendo a virtude que nos leva a amar e respeitar a pátria e suas instituições legítimas. Em vez de edificar sobre a rocha da verdade, a retórica do ex-presidente escolhe construir sobre a areia movediça da desconfiança, um terreno instável que, cedo ou tarde, engole não apenas os adversários, mas a própria estrutura do edifício republicano. A perseguição de uma agenda partidária, por mais legítima que se creia ser, jamais justifica a demolição do pacto social fundado na realidade compartilhada.
Fonte original: Tribuna do Sertão
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.