A mesa de negociações, por vezes, é o prolongamento do campo de batalha, mas com palavras em vez de balas. Quando Rússia e Irã, em uma coreografia diplomática calculada, alinham-se para denunciar as “agressões permanentes” de Washington e Tel Aviv, e mobilizam o “Sul Global” em nome da multipolaridade, é imperativo que a razão cristã perscrute além das declarações de boa intenção. A Doutrina Social da Igreja, herdeira da reta razão tomista, não se ilude com a superfície dos discursos; ela busca a ordem subjacente dos bens e das causas, discernindo entre a legítima defesa da soberania e a reconfiguração estratégica de poder.
É verdade que o cenário de “pressão máxima” e de ataques seletivos, mesmo quando justificado por uma lógica de autodefesa percebida, gera um risco real de escalada. O sofrimento de populações civis sob sanções e bombardeios é uma preocupação humanitária legítima, que ecoa o apelo de Pio XII pela dignidade de cada povo e pela urgência de uma ordem moral pública internacional. O respeito à soberania de cada nação e a estrita observância do direito internacional são pilares irrenunciáveis da paz. Nesse sentido, apelos ao Conselho de Segurança da ONU e a fóruns ampliados como o G20 são, em princípio, caminhos lícitos para a resolução de conflitos, desde que movidos por uma genuína busca pela justiça, e não pela instrumentalização de princípios para fins geopolíticos.
Contudo, a linguagem de “agressão unilateral” e a defesa do “direito iraniano de autodefesa” por Moscou se esbarram na exigência da veracidade. Não se pode simplesmente reduzir a complexa dinâmica do Oriente Médio a uma dicotomia simplista de agressores e defensores. As ações de Israel e dos Estados Unidos, por mais questionáveis que sejam em seus métodos ou proporções, frequentemente são apresentadas como respostas a ameaças concretas, como o programa nuclear iraniano ou o apoio a grupos não estatais que desestabilizam a região. A Rússia, por sua vez, ao reivindicar para Teerã um direito de autodefesa que lhe é negado em outros contextos, expõe a contradição de um discurso que se adapta conforme a conveniência estratégica. O que se condena em um, não pode ser justificado em outro.
A tão propalada “multipolaridade” é um termo que, como tantos outros na arena política, pode servir tanto a uma aspiração legítima de equilíbrio quanto à ambição de substituir uma hegemonia por outra. Chesterton, com sua sanidade contra a loucura lógica das ideologias, nos alertaria para o perigo de adorar a mera inversão de poder como se fosse a própria justiça. A busca por um sistema onde a lógica de “ataque primeiro e explique depois” seja desmontada é meritória, mas não pode ser replicada pelos novos polos de poder, sob pena de perpetuar a mesma desordem que se diz combater. A verdadeira ordem internacional, ensinou Leão XIII, não nasce da força bruta ou da engenharia de blocos, mas da liberdade ordenada de nações que reconhecem um direito natural superior às suas ambições particulares.
Em última análise, o plano diplomático russo-iraniano, por mais que se revista da retórica de paz e de defesa da soberania, precisa ser avaliado pelo fruto que produzirá. Se o objetivo final é uma paz estável e justa, ele deve transcender a mera contagem de forças e a instrumentalização de nações do Sul Global como peões em um tabuleiro. A paz não é a ausência de guerra, mas a tranquilidade da ordem, e esta só pode ser edificada sobre a rocha da verdade e da lealdade aos princípios, e não sobre a areia movediça de alianças táticas que buscam apenas a revanche histórica.
Não basta trocar o nome do senhor das hegemonias; é preciso reconstruir o altar da justiça entre os povos.
Fonte original: O Cafezinho
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.