A diplomacia, por sua própria natureza, pressupõe uma trama delicada de confiança e respeito mútuo. Quando essa trama se rasga em público, seja por retórica inflamada ou por ações unilaterais que desconsideram a soberania alheia, o trabalho de remendo exige mais do que meros fios de pragmatismo. A recente visita de Marco Rubio à Itália, em meio a uma tempestade de acusações presidenciais e distanciamentos políticos, não é uma simples escala de rotina, mas uma expedição forçada de resgate no coração de uma ordem internacional rachada. O Secretário de Estado americano tem a missão de “reconciliar laços”, mas o que se tenta remendar é um tecido de relações esgarçado por uma política externa que confunde a força com a arbitrariedade.
O ponto de ignição, mais uma vez, foi a figura do Papa Leão XIV. O líder da Igreja Católica, eleito sob o peso de ser o primeiro americano a sentar no Trono de Pedro, emergiu como um crítico contundente da guerra dos EUA e Israel contra o Irã. Donald Trump, por sua vez, não hesitou em atacá-lo, chamando-o de “fraco” e “terrível em política exterior”, insinuando uma perigosa complacência papal com o arsenal nuclear iraniano. Ora, o Papa, como fiel intérprete do Magistério, não faz política exterior no sentido convencional de alinhamento tático. Ele prega a paz, a condenação de todas as armas nucleares e o diálogo, como testemunhado no esforço vaticano pela libertação de prisioneiros em Cuba e pela mediação no degelo das relações EUA-Cuba em 2015. Essa não é uma agenda de fraqueza, mas a aplicação coerente de uma Doutrina Social da Igreja que há décadas clama por uma ordem justa e pela dignidade da pessoa humana, em vez da barbárie da guerra ou do isolamento.
O paradoxo da diplomacia moderna é que, para restaurar a ordem, é preciso, antes, reconhecer a loucura das desordens passadas. Chesterton, com sua visão da sanidade como a verdadeira rebelião, certamente veria na postura papal uma solidez que desafia a volubilidade de certos tronos temporais. O Cardeal Parolin foi claro: o Papa “segue o seu caminho, no sentido de pregar o Evangelho, de pregar a paz”. A tentativa de instrumentalizar ou desqualificar a autoridade moral da Igreja, como se esta devesse curvar-se aos caprichos de uma geopolítica volátil, revela uma miopia que não distingue o poder de coerção do poder da verdade. Leão XIV, ao expressar preocupação com o bloqueio a Cuba e as políticas anti-imigração, ecoa o ensinamento de Pio XII sobre a distinção entre povo e massa, e a necessidade de uma ordem moral pública que respeite as soberanias e a vida digna dos mais vulneráveis.
A Itália, historicamente um aliado vital dos EUA, também se viu arrastada para a balbúrdia. Giorgia Meloni, que antes se alinhava a Trump, classificou as palavras do presidente contra o Papa como “inaceitáveis”. Essa não é uma “falta de coragem”, como Trump acusou, mas um ato de prudência política e nacional. Quando a Itália impede o uso de sua base em Sigonella para uma operação americana não autorizada ou consultada, ela está exercendo um direito de soberania, um eco do princípio da subsidiariedade que defende a autonomia das comunidades e nações em suas justas esferas. A ameaça de tarifas da UE sobre carros e caminhões, em meio aos custos econômicos da guerra no Irã que Meloni enfrenta internamente, apenas intensifica a necessidade de um alinhamento estratégico que seja, de fato, mútuo e respeitoso, e não uma imposição unilateral.
A verdadeira questão que paira sobre a missão de Rubio é: pode-se realmente “reconciliar” os laços quando as causas da fissura não são endereçadas, mas apenas gerenciadas? A tese de que esta visita é um esforço pragmático para resguardar interesses nacionais vitais e a estabilidade das alianças pode ser válida, mas não pode ser a única medida. A justiça nas relações internacionais exige que a cooperação e a segurança compartilhada se construam sobre um terreno de veracidade, onde as declarações públicas sejam mais que arroubos eleitorais e as políticas reflitam um compromisso com o bem comum global, não apenas com o interesse imediato de uma única potência. Os aliados não são peões, e a autoridade moral não é um adorno.
Os pilares de uma ordem internacional justa – o respeito à soberania das nações, a busca pela paz, o diálogo genuíno e a proteção da dignidade humana – não são negociáveis como peças em um balcão. Eles são os alicerces. O que se espera da diplomacia americana não é apenas um esforço para conter o dano causado por uma retórica imprevisível, mas uma reorientação para um modelo que valorize a confiança mútua e a adesão aos princípios morais que, afinal, são a base de qualquer paz duradoura.
A paz duradoura não se costura com remendos de última hora, mas se tece fio a fio na verdade e na justiça entre os povos.
Fonte original: globo.com
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.