A política internacional, muitas vezes, assemelha-se a um grande teatro, onde gestos simbólicos disputam a atenção enquanto a realidade, crua e complexa, corre nos bastidores. O incidente em Berlim, onde Reza Pahlavi, filho do último xá do Irã, foi atingido por um inofensivo molho de tomate, é a epítome dessa encenação. O ato, mais performático do que perigoso, serviu para iluminar a fragilidade de uma pretensão: a de um líder exilado que, buscando apoio para uma “mudança de regime”, se apresenta como o salvador de uma nação cujas feridas são profundas demais para serem curadas por retalhos importados ou por uma narrativa simplista.
A figura de Reza Pahlavi, descendente de uma monarquia deposta em 1979 após anos de repressão e descontentamento popular, carrega um fardo histórico que é impossível ignorar. Seu retorno à cena, pleiteando uma “intervenção humanitária” e um “Irã livre”, enfrenta objeções que vão além da legítima polarização da diáspora iraniana. A preocupação mais premente reside na viabilidade de um projeto político que, antes mesmo de se firmar, flerta com a irresponsabilidade da desinformação, minando sua própria credibilidade e os alicerces de qualquer construção política justa.
A veracidade, virtude cardeal da vida pública e privada, é aqui severamente posta à prova. Quando um aspirante a líder de uma nação gravemente oprimida fundamenta parte de sua retórica em alegações geopolíticas que não encontram respaldo na realidade – como a suposta ofensiva EUA/Israel que teria resultado na morte de Ali Khamenei –, ele não apenas engana, mas compromete a própria integridade da causa que diz defender. A verdade não é um ornamento retórico, mas o solo fértil de onde brotam a confiança e a legitimidade. Construir um futuro sobre tais inverdades seria como edificar uma casa sobre a areia.
São Tomás de Aquino nos recorda que a ordem dos bens exige a primazia da verdade para a reta ordenação de qualquer ação humana. Um “regime moribundo”, mesmo que real, não pode ser combatido com táticas que ecoam as distorções da propaganda. O caminho para a liberdade e a justiça social no Irã passa pelo reconhecimento da soberania de seu povo e pelo respeito à sua dignidade da pessoa humana, não pela imposição de modelos externos ou por lideranças sem enraizamento orgânico. Pio XII, ao distinguir “povo” de “massa”, advertiu sobre o perigo da manipulação. O povo, enquanto corpo social com consciência e responsabilidade, deve ser o motor de sua própria libertação, não uma massa passiva à espera de um enxerto salvacionista de fora.
A prudência política exige um discernimento agudo dos riscos. A história recente está repleta de “intervenções humanitárias” que, em vez de liberdade, semearam o caos, a desintegração social e o sofrimento duradouro. A promessa de uma “mudança de regime” deve ser acompanhada de um plano robusto e orgânico, capaz de evitar os vazios de poder e aprofundar as divisões. O distanciamento do governo alemão em relação a Pahlavi, notando que “não cabia ao governo federal manter tais conversações”, é um indicador de que a realpolitik ocidental também reconhece a fragilidade da pretensão e o perigo de abraçar soluções superficiais para problemas tão complexos.
A verdadeira libertação do Irã não será fruto de um molho de tomate lançado sobre um terno, nem de uma restauração monárquica que ignore o peso da história e a autodeterminação popular. Será obra da fortaleza do seu povo em resistir, da humildade de seus verdadeiros líderes em servir e da justiça em reconhecer que a ordem social é construída de dentro para fora, sobre fundamentos sólidos de verdade e autonomia. A tentação de atalhos e soluções prontas, vendidas como panaceias, apenas prolonga a agonia.
A edificação de uma nação, liberta e soberana, não brota de sementes plantadas em solo movediço de falsidades, mas de raízes fincadas na verdade e na justiça, cultivadas pelo próprio povo.
Fonte original: O Povo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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