A expressão “inimigo dentro de casa”, lançada ao debate público pela ex-ministra Gleisi Hoffmann contra o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, ecoa com uma gravidade que transcende o embate político corriqueiro. Ela revela uma compreensão perigosa da vida pública, na qual a divergência institucional é transfigurada em traição pessoal e a complexa arte da articulação política, em mera exigência de lealdade incondicional. Trata-se de uma retórica que, ao invés de iluminar as causas das derrotas governistas, obscurece a responsabilidade e mina a própria estrutura da governabilidade.
É certo que a frustração com sucessivas derrotas no Congresso – como a rejeição de Jorge Messias para o Supremo ou a derrubada do veto sobre a dosimetria de penas, que convenientemente alivia o bolsonarismo – é compreensível. Mas a reação de Gleisi, ao personalizar a crise em Alcolumbre e tachá-lo de “inimigo”, é um sintoma da falha do próprio governo em construir e manter uma base legislativa coesa. Ora, o presidente do Senado, como qualquer líder de poder autônomo, não deve lealdade servil a um governo, mas à instituição que preside, aos interesses diversos de seu colégio e, por vezes, à sua própria agenda política. A autonomia do Poder Legislativo, longe de ser um estorvo, é um pilar da república, e sua função não é replicar os desejos do Executivo, mas contrapor, negociar e ponderar.
A doutrina social da Igreja, especialmente nos ensinamentos de Leão XIII sobre a liberdade ordenada e de Pio XI sobre a subsidiariedade e a crítica à estatolatria, adverte-nos contra a tentação de concentrar todo o poder e toda a legitimidade em uma única instância. A república, para ser justa e duradoura, exige a distinção de poderes e o respeito às suas prerrogativas. Quando o Executivo (ou a linha partidária a ele associada) busca submeter o Legislativo a uma lógica de obediência inquestionável, entra-se na perigosa trilha da estatolatria, onde o interesse particular de um grupo se confunde com o bem de toda a nação. A justiça política demanda que cada instituição cumpra seu papel, e que as tensões inerentes a esse arranjo sejam geridas com humildade e realismo, e não com a denúncia inflamada.
Ademais, os números da pesquisa AtlasIntel/Bloomberg, que revelam uma imagem extremamente negativa de Alcolumbre junto à opinião pública (81% de rejeição), adicionam uma camada de cinismo à estratégia governista. Embora impopular, Alcolumbre mantém seu poder de articulação e barganha nos bastidores do Congresso. Atacá-lo publicamente, neste contexto, pode ser uma manobra para o governo se descolar de um aliado impopular, mais do que uma busca genuína por lealdade. Mas essa tática é uma faca de dois gumes: pode consolidar o senador em seu papel de “independente” perante seus pares, que podem ver o ataque como uma afronta à autonomia do Legislativo.
Chesterton, com sua perspicácia para desmascarar as loucuras lógicas da modernidade, talvez risse da pretensão de se exigir unanimidade onde a própria natureza da política exige pluralidade e negociação. A sanidade cívica reside na capacidade de aceitar que o Legislativo, por sua própria função, não é um braço estendido do Executivo, mas um contraponto necessário, ainda que incômodo. A complexidade do jogo de forças que levou às derrotas governistas não pode ser reduzida à perfídia de um “inimigo interno”; antes, expõe a necessidade de uma articulação mais robusta e menos personalista por parte do governo.
O caminho para a governabilidade não reside na identificação de bodes expiatórios ou na escalada retórica contra figuras institucionais. Exige o reconhecimento sincero da pluralidade de interesses, a capacidade de negociar sem coação e a sabedoria para distinguir entre a legítima divergência e a real sabotagem. A verdadeira força de um governo não se revela em quem ele pode derrubar, mas em quantos pilares ele consegue sustentar para edificar a casa comum.
Fonte original: Brasil 247
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.