A política, em sua essência, deveria ser a arte de construir, tijolo a tijolo, uma casa comum sólida para o povo. No entanto, é comum que alguns construtores, movidos mais pelo desejo de um título na porta do que pela integridade da obra, troquem de lugar no canteiro conforme a conveniência do vento. É o que se vislumbra na pré-campanha de Requião Filho ao governo do Paraná, onde a narrativa da “coerência” se choca com a cronologia de três filiações partidárias distintas. Ele se apresenta como um farol inabalável: “eu faço o que eu falo e faço aquilo que acredito”, sem “mudar o meu discurso”, apesar de ter migrado do MDB, passado pelo PT e agora se abrigar no PDT.
Mas qual a substância de uma coerência que se mantém intacta ao navegar por siglas de espectros tão variados? Partidos políticos não são meros clubes de fãs ou veículos descartáveis. Conforme a Doutrina Social da Igreja, eles deveriam ser “associações livres” que expressam projetos coletivos, com plataformas e princípios que, embora mutáveis em detalhes, guardam uma espina dorsal ideológica. Afirmar que o MDB “tomou rumo que para mim era inaceitável”, citando privatização e antagonismo a servidores, ou que o PT cometeu “erros graves do Governo Federal, em relação ao Paraná”, é reconhecer divergências programáticas profundas. Se o discurso de um político jamais muda, mas os projetos coletivos a que ele se filia — e que, presume-se, endossa — o fazem de forma tão radical, a questão da *veracidade* na vida pública se impõe. A verdade devida ao eleitor não é apenas sobre o que se *diz*, mas sobre o que se *é* e a quais projetos coletivos se está verdadeiramente vinculado.
A crítica de Requião Filho à “política do pronome”, aquela que busca o “eu sou deputado, eu serei governador”, acerta em cheio um vício arraigado da nossa República. É a instrumentalização do poder para o culto do ego, um tipo de “estatolatria” pessoal, onde o político se torna o centro, e não o povo. Paradoxalmente, sua própria defesa é igualmente personalista: “minha coerência”, “meu discurso”. A questão, então, não é meramente a troca de um crachá, mas a adesão genuína a um plano de governo que transcenda a pessoa do candidato e se ancore em princípios firmes e numa visão de longo prazo para o estado, para além da vaga premissa de “ser contra a corrupção”.
Essa retórica da “coerência inegociável” pode ser a chave para desvendar as complexidades da política contemporânea. Chesterton, com sua perspicácia, diria que o político moderno, ao defender sua constância em meio à volubilidade dos partidos, parece performar um paradoxo. É como o homem que se orgulha de ter a mesma opinião sempre, enquanto a cada dia veste uma roupa de cor diferente e reclama que o tecido é que mudou. Talvez a verdadeira sanidade, em um cenário de promessas tão fluidas, resida na capacidade de reconhecer que a *lealdade* a um projeto coletivo é parte essencial da *justiça* devida à sociedade, e que a grandeza de alma (*magnanimidade*) se manifesta na construção de pontes sólidas, e não em saltos retóricos entre plataformas movediças.
A crítica veemente a Sergio Moro e Bolsonaro, acusando-os de hipocrisia e de desvio de caráter, embora possa ter seus méritos em pontos específicos, revela um espelho. Afinal, a linha de raciocínio de que as motivações foram sempre ocultas e os resultados espúrios pode ser aplicada, com igual força, à própria trajetória de quem se move entre ideologias tão distintas, sempre justificado pela “coerência” de um discurso que nunca mudou. O que distingue, na prática, uma “flexibilidade estratégica” de um oportunismo velado, se os princípios partidários se mostram tão maleáveis?
A eleição para o governo do Paraná exige mais do que a mera afirmação de uma consistência verbal, exige um programa de governo sólido, enraizado em virtudes de *veracidade* e *justiça*, que se preocupe com a ordem dos bens e com o destino partilhado do povo, não com a mera conquista de um título. A liderança verdadeira não é a que reclama da inconsistência alheia ao mesmo tempo em que reinterpreta a própria; é a que, ancorada em uma visão clara de futuro e em princípios não negociáveis, assume a carga compartilhada de construir um futuro digno para todos os paranaenses. A tarefa de governar não é um espetáculo pessoal, mas um ato de serviço, onde a adesão a ideias e não a etiquetas é o que realmente define um homem público.
Fonte original: Vvale
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.