Os recentes tropeços do governo no Senado, com a recusa de uma indicação ao Supremo e a derrubada de um veto presidencial, não são meros lances do jogo político, mas frestas que expõem a fragilidade das fundações de nossa República. É fácil, e para alguns conveniente, equiparar o momento atual a ciclos passados de instabilidade, como o tumultuado segundo mandato de Dilma Rousseff. Tal comparação, no entanto, frequentemente mascara mais do que revela, transformando a complexidade da cena política em um palco para velhas vinganças e projeções determinísticas, sem discernir o que é um problema real de governabilidade e o que é pura paixão facciosa.
Reconheçamos as preocupações legítimas: a governança em um Congresso fragmentado exige uma articulação política robusta e contínua, uma arte que transcende a mera soma de apoios e que se nutre do respeito às instituições. Igualmente, o desafio de conciliar demandas sociais com a sustentabilidade fiscal, em um país de expectativas elevadas e recursos limitados, é uma tensão real que o Executivo deve endereçar com responsabilidade. A polarização persistente, essa chaga que nos impede de construir consensos nacionais em torno de pautas estratégicas, é um obstáculo que se ergue sobre o terreno da desconfiança mútua. Estes são os dilemas concretos que exigem sabedoria política e um senso acurado de justiça, não meras acusações de “compra de votos” ou “quebra do país” que deslegitimam de antemão qualquer esforço.
No entanto, há uma loucura lógica em reduzir a política à soma de rancores pessoais e à crença de que o adversário deve ser aniquilado, não dialogado. É a visão de um governo como “chefe de facção”, e não como o guardião da ordem de bens que serve a todo o povo, conforme adverte Pio XII em sua distinção entre povo e massa. A estatolatria, denunciada por Pio XI, manifesta-se não apenas no inchaço do Estado, mas na crença de que o poder concentrado em um grupo, seja Executivo, Legislativo ou Judiciário, pode se sobrepor à ordem moral pública e aos freios e contrapesos que sustentam a vida comum. A política, para ser virtuosa, deve ser um exercício de veracidade, que impõe o dever de distinguir a verdade dos fatos da retórica manipuladora, e de justiça, que exige equidade na distribuição de encargos e direitos, e respeito à autoridade legítima e aos papéis institucionais.
Quando a narrativa se esvazia em profecias de “velhice antes de iniciar” ou em acusações de que o Executivo se move apenas por “rancor pessoal e vingança”, ela não está descrevendo o real, mas projetando uma caricatura ideológica. Tal postura, longe de ser uma análise política, é a negação da capacidade de agência dos atores e da complexidade das alianças que se formam e se desfazem no Congresso. As derrotas pontuais são parte do jogo, não um epitáfio. O impeachment de Dilma, um evento extremo com suas próprias causas e consequências, é constantemente evocado não como um marco histórico a ser compreendido, mas como uma sombra determinística sobre o futuro, um atalho argumentativo que ignora a fluidez da política brasileira e a adaptabilidade dos líderes.
A verdadeira vocação do estadista, alheia a essas personalizações tóxicas, está em buscar a reta ordenação dos bens e a promoção de uma ordem justa para toda a sociedade. Isso implica uma firmeza moral para resistir à tentação do curto prazo, da mera sobrevivência política em detrimento dos princípios. Significa, por exemplo, aprimorar a capacidade de formar uma base de apoio sólida no Legislativo, sim, mas também cultivar um diálogo institucional com o Judiciário que minimize a percepção de partidarização, reconhecendo a legitimidade de cada poder em sua esfera. A tarefa é forjar pontes, não trincheiras, entre os Poderes e entre os diversos segmentos sociais, superando o “nós contra eles” que tantos males nos tem custado.
Não se trata de buscar um equilíbrio artificial ou uma moderação forçada onde a doutrina exige clareza. Mas em temas prudenciais, a inteligência católica nos convoca a diferenciar o princípio permanente da aplicação contingente, e a escolher a solução mais conforme à ordem dos bens e à vida comum. A política não é uma corrida de eliminação de adversários, mas a arte de construir uma morada sólida para a dignidade humana, tijolo por tijolo.
O desafio que se impõe à nação não é o de prever um desfecho predeterminado, mas o de edificar uma arquitetura política robusta, onde a justiça prevaleça sobre a conveniência e a veracidade sobre a propaganda, para que os pilares da República não cedam sob o peso das paixões transitórias.
Fonte original: Poder360
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.