Um mapa é promessa de rumo, uma bússola que aponta para um horizonte. No manifesto recém-aprovado em seu Congresso Nacional, o Partido dos Trabalhadores apresenta seu próprio mapa para 2026, com a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no centro e o Brasil projetado como “peça-chave na disputa global entre democracia e extrema-direita”. Há uma ambição estratégica inegável nesse desenho, mas a inteligência doutrinária nos impõe uma pergunta essencial: a bússola aponta para o bem comum ou para a perpetuação de um campo político a qualquer custo?
A leitura atenta do documento revela uma excessiva personalização da estratégia eleitoral na figura do atual presidente. Embora a centralidade de líderes seja uma constante na política moderna, a Doutrina Social da Igreja adverte sobre os perigos de se subordinar o projeto de uma nação à figura de um único homem. Pio XII já diferenciava o “povo” – organismo vivo, plural, com sua história e destino – da “massa” – amorfa, manipulável, dependente de um carisma que se sobrepõe às instituições. Quando a institucionalidade partidária e a emergência de novas lideranças ficam em segundo plano, a estrutura política se fragiliza, e a nação, em vez de edificar sobre alicerces sólidos, passa a depender da vitalidade de um indivíduo. É um risco estrutural à sustentabilidade democrática.
A retórica de polarização – a qual opõe “democracia” a uma vaga “extrema-direita” – é outra fonte de preocupação legítima. Se, por um lado, a defesa da democracia é um dever inegociável, por outro, a simplificação do debate político em dicotomias absolutas impede o diálogo e a busca por consensos mínimos. Tal abordagem arrisca solidificar divisões sociais e políticas já existentes, em vez de construir pontes que a justiça política demanda para uma verdadeira coesão social. A história nos ensina que o combate ao adversário, quando se torna deslegitimação de qualquer oposição, mina a própria vitalidade democrática que se pretende proteger. O respeito ao opositor, ainda que em grave desacordo, é um exercício de caridade política e condição de civilidade.
O manifesto propõe uma “coalizão entre setor produtivo, classe trabalhadora e movimentos sociais” e critica o “rentismo”. A busca pela cooperação entre diferentes estamentos da sociedade é um ideal solidarista, presente na Doutrina Social desde Leão XIII. Contudo, a mera menção a essa coalizão não garante sua viabilidade. Sem princípios de justiça bem definidos para a propriedade com função social, para o salário digno e para a valorização dos corpos intermediários (como sindicatos e associações empresariais autônomas, e não meros apêndices estatais ou partidários), o risco é de uma acomodação precária de interesses conflitantes, ou, pior, a diluição de pautas sociais legítimas sob o peso de uma agenda eleitoral. O combate ao “rentismo”, se não for traduzido em políticas econômicas claras que fomentem a produção e o investimento real, pode afastar o próprio setor produtivo necessário à tal coalizão.
No plano internacional, a pretensão de o Brasil ser “peça-chave” em uma disputa global complexa exige uma boa dose de humildade. Embora a projeção do país no “Sul Global” e a defesa do multilateralismo sejam louváveis – e, de fato, a diplomacia brasileira tem tradição e capacidade –, a redução da complexidade geopolítica global a uma dicotomia entre “democracia e extrema-direita” corre o risco de ser percebida como pretensiosa ou ideológica. A verdadeira influência de uma nação no cenário mundial não advém apenas de sua retórica, mas de sua capacidade de resolver os próprios desafios internos, como as profundas fragilidades econômicas, sociais e ambientais que ainda nos afligem. Uma política externa vigorosa é um reflexo de uma casa interna bem ordenada.
Finalmente, as propostas de renovação interna do PT – “transição geracional, ampliação da presença de mulheres e alternância de comando interno” – merecem aplauso. No entanto, sua concretude e genuinidade precisam ser demonstradas em face da prioridade máxima dada à reeleição de um líder já consolidado. A veracidade exige que essas promessas não se tornem meras formalidades, esvaziadas de sua potência de transformação. O desafio é conciliar a urgência eleitoral com a necessidade permanente de renovação e pluralidade que todo partido político, se pretende ser um instrumento do bem comum, deve cultivar.
A grande tarefa de um projeto de nação não é apenas eleger um governante ou um partido, mas edificar um regime político que preserve a liberdade ordenada, promova a justiça em todas as suas dimensões e cultive a unidade social sem esmagar o dissenso legítimo. Que a verdadeira grandeza de uma nação não se mede pelo brilho de um palanque, mas pela durabilidade dos laços que tecem a vida comum.
Fonte original: O Cafezinho
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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