No sul do Líbano, uma casa que era santuário familiar transformou-se em túmulo para uma mãe brasileira e seu filho de onze anos. A notícia, que o Itamaraty trouxe com a gravidade devida, é mais um estilhaço de uma paz frágil, uma violência que reitera a condenação brasileira à escalada das hostilidades e às demolições sistemáticas de residências civis atribuídas às forças israelenses. O governo do Brasil não hesita em exigir a cessação imediata dos ataques e a retirada completa das tropas israelenses do território libanês, ao mesmo tempo em que condena os ataques do Hezbollah.
Contudo, a busca pela justiça plena nos impõe a veracidade dos fatos em sua totalidade, por mais incômoda que seja. A tragédia do lar desfeito de civis libaneses e brasileiros é inegável, mas a causalidade deste conflito é uma teia muito mais emaranhada do que a simplificação apressada pode sugerir. Há uma premente questão que o clamor pela paz imediata muitas vezes relega: qual a real soberania do Estado libanês sobre seu próprio território quando um grupo armado, como o Hezbollah, opera com total autonomia militar, apoiado por potências estrangeiras, e lança foguetes contra um Estado vizinho, Israel, transformando impunemente vilarejos e cidades libanesas em plataformas de guerra?
A doutrina social da Igreja, ao falar da ordem política e da autoridade legítima, como Pio XII o fez ao diferenciar “povo” de “massa” e ao defender a ordem moral pública, pressupõe um Estado capaz de exercer o monopólio da força e garantir a segurança de seus cidadãos. Leão XIII, ao tratar da liberdade ordenada e da anterioridade da família ao Estado, jamais imaginou que grupos armados não-estatais pudessem subverter a ordem interna de uma nação, tornando seu território uma base para agressão externa. Quando o Hezbollah opera militarmente, ele não apenas agride Israel; ele usurpa a soberania do Líbano, colocando seus próprios cidadãos, como a família brasileira vitimada, em risco direto.
Não se trata de relativizar a dor dos inocentes nem de minimizar a responsabilidade de Israel em garantir a proporcionalidade de sua legítima defesa e a proteção dos civis. Mas o juízo reto da justiça exige que reconheçamos a cadeia completa de responsabilidade. É imperativo que a comunidade internacional e o próprio Líbano exijam que o Hezbollah se desarme e se submeta à autoridade estatal, deixando de ser um casus belli ambulante. A ideia de que Israel deve se retirar unilateralmente, sem qualquer garantia efetiva contra a continuidade dos ataques do Hezbollah, é uma abstração que ignora a realidade crua da segurança fronteiriça.
A paz duradoura não se constrói sobre cessar-fogos frágeis e quebras mútuas de confiança, mas sobre a restauração da ordem justa. Isso implica que o Líbano reassuma o controle pleno de seu território, que o Hezbollah cesse suas hostilidades e que a segurança de Israel seja genuinamente assegurada, permitindo que todas as populações civis vivam sem o temor da guerra. A exigência brasileira é justa em sua condenação à violência, mas deve ser complementada por um apelo firme à restauração da soberania libanesa e à desmilitarização de grupos que operam à margem da lei, de modo a desvendar o nó górdio que prende a região à perene ameaça.
A verdadeira esperança para a região não reside em condenações que apontam apenas para um lado, mas na coragem de desmantelar todas as fontes de desordem. A casa da paz, afinal, só pode ser edificada quando os alicerces da justiça e da veracidade forem inabaláveis e a autoridade legítima for respeitada, sem que grupos armados transformem nações inteiras em reféns de suas agendas.
Fonte original: Correio Braziliense
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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