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PGP 2026 Bahia: Participação Política e o Risco da Encenação

O Programa de Governo Participativo (PGP) 2026 na Bahia levanta dúvidas: escuta popular legítima ou instrumentalização política para pré-campanha? Analisamos os riscos à confiança.

🟢 Análise

O palco estava armado em Feira de Santana, não para uma peça dramática, mas para um espetáculo político de nuances. A plenária do Programa de Governo Participativo (PGP 2026), encabeçada pelo governador Jerônimo Rodrigues, desfilava uma galeria notável de personagens: vice-governador, senadores, ministros, mais de vinte prefeitos, representantes de movimentos sociais como o MST, estudantes universitários e empresários. O discurso oficial era claro: construir o futuro da Bahia ouvindo a todos, da juventude ao setor produtivo, dos prefeitos à base militante. As palavras fluíam em cascata sobre “construir a história”, “o trabalho que supera a mentira” e a convocação para que a base “não baixe a cabeça”. Parecia o manual da democracia participativa em ação, com o governador destacando obras e investimentos como o Hospital do Câncer e a ampliação do Hospital Clériston Andrade.

Contudo, por trás da fachada sonora e do espaço “lotado” do Clube de Campo Cajueiro, uma interrogação se impõe, talhada na pedra da velha e boa sanidade: seria esta uma genuína escuta popular ou, ao revés, um ensaio geral de pré-campanha eleitoral? A preocupação legítima não reside na ideia de um governo dialogar com sua população – isso é virtuoso por natureza. O que inquieta é a ausência de mecanismos transparentes e auditáveis que garantam a incorporação efetiva das propostas, e não apenas o registro performático das contribuições. É a sombra de uma escuta seletiva, onde vozes alinhadas são amplificadas e as dissonantes, silenciadas. A linha divisória entre programa de governo e plataforma eleitoral fica perigosamente esgarçada, e o risco de uma instrumentalização da participação para legitimar agendas já definidas paira no ar.

Neste cenário de aparente unanimidade, a Doutrina Social da Igreja oferece uma bússola inestimável, distinguindo o “povo” da “massa”, conforme a sabedoria de Pio XII. O povo, em sua acepção orgânica, é um corpo vivo de instituições, famílias, associações e indivíduos que participam ativamente da vida pública, com suas responsabilidades e sua capacidade de decisão. A massa, ao contrário, é um aglomerado informe, facilmente manipulável por discursos e emoções, mais apta a aplaudir do que a deliberar. A verdadeira participação exige que o poder não esmague os corpos intermediários, mas os fortaleça, num espírito de subsidiariedade tão caro a Pio XI. Quando o governo se autodenomina o grande ouvinte, mas não estabelece canais de recepção, debate e deliberação que confiram peso real à voz dos cidadãos, o que se tem não é um povo ativo, mas uma massa convocada para referendar.

A virtude da veracidade é aqui a pedra de toque. Um programa verdadeiramente participativo não se constrói apenas com a presença física de variados segmentos, mas com a honestidade de um processo onde as propostas, inclusive as que desalinham, encontrem eco e sejam submetidas a critérios claros de análise e implementação. O que se viu em Feira de Santana tem o aroma de uma celebração política, onde as demandas são depositadas em uma caixa para, quem sabe, serem transformadas em matéria-prima para o discurso do poder já estabelecido. O governo, que se pretende humilde ao “ouvir”, demonstra uma curiosa humildade seletiva ao não se expor a um contraditório robusto, preferindo a plateia engajada à mesa de diálogo com regras claras.

Chesterton, com seu paradoxo mordaz, diria que o moderno quer a forma da coisa sem a substância. Quer a participação sem o incômodo da divergência, a escuta sem a necessidade de mudar de rota. A sanidade cívica, porém, clama por justiça no processo político. A justiça exige que a influência não seja apenas proporcional ao capital político ou à proximidade com o poder central, mas que reconheça o valor intrínseco de cada contribuição para o bem da cidade. Não basta registrar propostas; é preciso mostrar o percurso dessas propostas, o peso que lhes foi dado, as razões para sua aceitação ou recusa.

Portanto, o Programa de Governo Participativo em Feira de Santana, por mais bem-intencionado que se apresente, corre o risco de ser uma sofisticada encenação. Se não houver transparência radical nos mecanismos de incorporação das propostas, se as vozes críticas não tiverem o mesmo palco das alinhadas, e se a distinção entre gestão e campanha eleitoral for obliterada, estaremos diante de mais um episódio de instrumentalização da boa-fé popular. A construção de uma ordem justa para a Bahia não se faz com um palco e um microfone, mas com a labuta paciente de edificar a confiança pública, que começa na verdade dos processos. A soberba de quem se pensa capaz de construir o futuro sozinho, ainda que rodeado de uma multidão, é a mais frágil das construções.

Fonte original: Jornal Grande Bahia (JGB)

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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