O palanque da diplomacia internacional é, por vezes, um tablado de sombras. Sob o foco de negociações e cessar-fogos, os contornos da paz real podem se desvanecer, substituídos por uma coreografia de poder que disfarça a persistência dos conflitos. A renúncia de Mohammad Bagher Ghalibaf, figura central na diplomacia iraniana, e a subsequente intensificação de movimentos no Oriente Médio, são sintomas claros dessa dança ambígua. A pressão conservadora sobre Ghalibaf por sua abertura a incluir a questão nuclear nas conversas com Washington revela que, por trás dos sorrisos protocolares, a luta pelo controle da narrativa e da estratégia é feroz, e que o jogo de xadrez interno muitas vezes define o tom externo.
Não é de estranhar que a expectativa de “acordos de paz” – como a otimista projeção do presidente Trump para um entendimento mais amplo entre Israel e Líbano – se misture a um arsenal de ameaças militares e a uma retórica endurecida. O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, mantém “opções militares abertas” enquanto adverte aliados europeus, evidenciando que a gestão do conflito, para Washington, é indissociável da demonstração de força. Essa dualidade, onde a busca pela paz é ladeada por bravatas e sanções, alimenta um ciclo de desconfiança mútua. As populações civis, presas em zonas de conflito como Iraque e Líbano, são as primeiras a sentir o peso dessa incerteza, iludidas por promessas que, historicamente, se revelam mais frágil do que se anuncia.
A fragilidade de tais acordos é acentuada pela assimetria de poder e pela exclusão de questões cruciais. A União Europeia, pela voz de Kaja Kallas, alerta que um pacto com o Irã que ignore seu programa de mísseis é um acordo frágil. Essa ressalva toca o nervo de uma questão central: o Irã considera sua capacidade de mísseis um pilar de sua defesa, enquanto seus oponentes a veem como uma ameaça desestabilizadora. Ignorar essa tensão fundamental, ou tratar a defesa de uma nação como moeda de troca instrumental, é pavimentar o caminho para a próxima crise. A agência estatal iraniana Irna, ao descrever os acontecimentos como uma “guerra imposta pelos Estados Unidos e pelo regime israelense”, reflete a profunda clivagem de percepções que dificulta qualquer avanço substantivo.
A Doutrina Social da Igreja, alicerçada na justiça e na reta ordem dos bens, ensina que a paz não é meramente a ausência de guerra, mas a tranquilidade da ordem. Esta ordem implica o respeito à dignidade de cada nação e de seus povos, e não apenas o balanço de forças entre potências. Pio XII, em sua distinção entre “povo” e “massa”, nos recorda que as negociações internacionais devem servir ao bem-estar e à liberdade de cada comunidade, e não se converter em jogadas cínicas de elites ou estados hegemônicos. A instrumentalização de milícias regionais, com recompensas milionárias por suas lideranças, ou a tentativa de ditar os termos de segurança a aliados europeus, apenas corroem a fibra da solidariedade internacional e a possibilidade de uma paz duradoura e verdadeira.
A substituição de Ghalibaf por uma figura ultraconservadora como Saeed Jalili, possível novo líder das negociações, serve como um lembrete vívido da dinâmica interna iraniana. A pressão externa, em vez de fomentar a moderação, pode, paradoxalmente, fortalecer os setores mais radicais, que se fecham em uma postura de resistência diante do que interpretam como agressão. A busca por uma paz autêntica exige veracidade na avaliação das intenções e dos limites. Não se trata de desconsiderar a necessidade premente de evitar o confronto, mas de reconhecer que a gestão do conflito, sem a eliminação de suas causas profundas, é apenas uma trégua adiada. O paradoxo é que se busca a paz pela via da ameaça, e se espera estabilidade de negociações que contornam os problemas centrais, como se um edifício pudesse ser seguro sem alicerces firmes.
É certo que a diplomacia, mesmo em suas formas mais imperfeitas, é preferível à escalada militar. Ela representa um caminho pragmático para gerir tensões e evitar custos humanos e geopolíticos ainda maiores. Contudo, essa pragmática não pode se eximir de um juízo moral. Um cessar-fogo prorrogado por três semanas, enquanto opções militares permanecem “abertas” e armamentos estratégicos são consumidos, é um sintoma de um processo que ainda está longe da verdadeira reconciliação. A paz, na sua essência, não é o silêncio imposto pelo temor, mas a harmonia nascida da justiça e do reconhecimento mútuo.
A verdadeira vocação da política internacional, do ponto de vista católico, não é a perpetuação de um jogo de soma zero, mas a construção de uma comunidade de nações onde cada uma possa desenvolver-se em liberdade ordenada e com respeito recíproco. O atual cenário, com sua mistura de otimismo forçado e ameaças veladas, mostra que ainda estamos a meio caminho de tal visão. Não basta uma pausa estratégica no conflito; é preciso um compromisso inabalável com a ordem justa que, em última instância, é a única garantia de uma paz que não seja uma miragem.
Fonte original: Tribuna do Sertão
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.