A política, em sua essência mais nobre, é a arte de construir a cidade dos homens de modo que ela espelhe a justiça divina e propicie a virtude. No Paraná, a apresentação de Sandro Alex como sucessor natural do governador Ratinho Junior desenha uma imagem de continuidade, um “tocador de obras” que, à frente de um “time que resolve”, promete seguir o rastro de conquistas e prosperidade. Há, sem dúvida, o reconhecimento de obras concretas – pontes, rodovias de concreto, expansão portuária – que respondem a necessidades materiais prementes do Estado. O empenho na execução, a dedicação ao que é tangível, são méritos que não podem ser negados, pois o trabalho honesto e a laboriosidade são virtudes essenciais à vida pública.
Contudo, a narrativa que reduz a complexidade da governança a um embate entre o “time que resolve” e o “time que reclama” merece um olhar mais acurado. A vida cívica não é uma partida de futebol onde apenas um lado merece o mérito da jogada. A própria dinâmica da democracia, sob a luz da Doutrina Social da Igreja, exige uma vitalidade que transcende a mera celebração de um legado. O Magistério nos ensina que o Estado existe para o bem comum, e não para a perpetuação de um grupo político, por mais eficaz que ele se apresente. A boa governança, segundo Pio XI, demanda a ação de corpos intermediários e uma subsidiariedade que fomente a participação e a crítica, e não a mera adesão a um projeto centralizado. A autêntica subsidiariedade fortalece o que está perto, não esmaga os corpos vivos da sociedade em prol de uma única visão.
Quando a oposição é sumariamente desqualificada como mera “reclamação”, corre-se o risco de silenciar vozes necessárias e de obscurecer problemas que, embora não convenientes à retórica oficial, são reais para parcelas da população. A crítica construtiva é um elemento vital para a correção de rumos e a inovação. A tentação de converter a administração pública em uma “máquina” a serviço de uma campanha eleitoral é um desvio que mina a veracidade e a justiça que devem pautar a vida política. As obras do Estado são do povo, realizadas com os impostos do povo, e não patrimônio privado de um “time” em particular, a ser capitalizado em tempo de eleição.
Não basta, pois, ufanar-se de números e conquistas sem submetê-los ao escrutínio da veracidade e da prestação de contas independente. Alegar que o Paraná tem “mais obras que São Paulo” ou que o Porto de Paranaguá é “o melhor do Brasil por seis vezes consecutivas” são afirmações que, no calor da campanha, exigem bases sólidas e métricas transparentes que vão além da palavra do candidato ou do governante. A população, ensinava Pio XII, não é uma massa passiva a ser moldada pela propaganda, mas um povo dotado de razão e capacidade de discernimento, que age de forma inteligente na urna.
O Polemista Católico, ao julgar a contenda, não pode compactuar com a ideia de que a excelência da governança reside na perpetuação inquestionável de um único grupo. Ao contrário, a verdadeira grandeza reside na capacidade de um governo de se renovar, de integrar críticas, de adaptar-se e de permitir a alternância de visões e lideranças. Chesterton nos alertaria para a “loucura lógica” de fechar os olhos à realidade para se ater a uma verdade parcial e autocongratulatória. A busca pela justiça exige que o debate público seja um encontro de ideias e propostas, e não um monólogo celebratório.
A verdadeira construção de um futuro não se mede apenas em quilômetros de asfalto ou toneladas no porto, mas na capacidade de erguer uma sociedade onde a verdade é o alicerce e a justiça, o horizonte perene.
Fonte original: Bem Paraná
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.