A política, quando reduzida a um jogo de cadeiras e siglas, assemelha-se mais a um baile de máscaras do que à solene edificação da casa comum. No Paraná, palco de intensas movimentações pré-eleitorais para 2026, a cena atual revela não uma divisão ideológica profunda, mas a instrumentalização de legendas e lideranças em uma dança tática que, ao invés de solidificar as bases cívicas, as fragiliza. A migração do senador Sergio Moro para o Partido Liberal, arrastando consigo deputados e a promessa de um palanque “Bolsonaro-Moro” para a presidência, e a pronta resposta do governador Ratinho Junior, que mobiliza sua máquina para realocar aliados e esvaziar o partido rival, são mais do que meros ajustes de rota; são sintomas de uma enfermidade institucional que corrói a estabilidade necessária à justa ordem.
É legítima a preocupação com a incerteza gerada por essa demora na definição de um candidato governista, um vácuo que, como adverte o cientista político Doacir Quadros, pode ser prontamente preenchido por outras ambições. Da mesma forma, a personalização excessiva da política, com migrações partidárias que parecem guiadas por conveniência individual em vez de fidelidade programática, enfraquece o tecido dos corpos intermediários que a Doutrina Social da Igreja sempre defendeu como essenciais à vitalidade de uma sociedade. Uma fragmentação excessiva, alimentada por essas trocas incessantes, pode sim dificultar a formação de maiorias estáveis e de governos com capacidade de ação coerente.
O problema, contudo, não reside na existência de um debate, mas na forma como ele se dá. A “máquina” do governo, com sua capilaridade nos municípios e seu poder de negociar cargos e apoios, é um fato inegável. Quando essa estrutura é acionada para disciplinar ou cooptar, como visto nas exonerações de comissionados ou nas disputas sobre o número real de prefeitos que deixaram ou não o PL, a justiça política é posta à prova. A distinção entre o que é interesse do governo e o que é interesse público torna-se turva. O que deveria ser uma arena de princípios, programas e legítima disputa por visões de futuro, degenera em um xadrez de barganhas onde a lealdade é transitória e o poder, um fim em si. Pio XI já alertava para a crítica à estatolatria, quando o Estado, ou em metonímia o governo, assume para si prerrogativas que sufocam a liberdade e a autonomia dos grupos menores e das associações livres, incluindo os partidos políticos como mediadores da vontade popular.
Há quem argumente que o campo da direita paranaense, apesar de suas tensões internas, se mantém coeso pelo antipetismo, um forte aglutinador que limita a profundidade da “divisão” a um escopo meramente tático. Sergio Moro, ao declarar que “respeitamos o governador e ele também é bem-vindo para apoiar o projeto do PL”, parece endossar essa visão pragmática, sugerindo que a porta para uma futura aliança não está fechada. Mas pode um projeto político ser verdadeiramente magnânimo, capaz de erguer um horizonte de esperança para o povo, se sua principal força motriz é a aversão a um inimigo comum, em vez de uma adesão firme a bens positivos e duradouros?
O que o cenário paranaense escancara é a fragilidade dos alicerces cívicos quando a ambição pessoal suplanta a reta ordenação dos bens e quando a veracidade da comunicação política é constantemente posta em cheque. A alta volatilidade do eleitorado, com 70% de indecisos, não é um sinal de indiferença, mas talvez de uma busca por algo mais substantivo que o eterno realinhamento de siglas e a guerra de narrativas. O eleitor não é uma massa passiva a ser moldada pela propaganda, mas um povo que anseia por líderes que construam, com honestidade e laboriosidade, uma sociedade à altura de sua dignidade.
A tarefa da verdadeira liderança política não é apenas vencer eleições, mas construir instituições sólidas, onde os partidos sirvam como canais autênticos para a participação dos cidadãos e para a promoção de políticas que efetivamente sirvam à vida comum. Isso exige que o poder não seja centralizado e manipulado, mas distribuído e compartilhado, fortalecendo os corpos intermediários e a capacidade de autogoverno das comunidades, conforme o princípio de subsidiariedade. O governo que promove a transparência curricular, que apoia conselhos escola-família-comunidade, ou que estimula a propriedade difusa e o cooperativismo, é o governo que investe na vitalidade real do seu povo, e não apenas na manutenção de sua própria estrutura.
A verdadeira força política não se mede pela agilidade em trocar de sigla, mas pela firmeza em erguer, tijolo a tijolo, uma casa comum onde a justiça não seja convite, mas alicerce.
Fonte original: Folha de Londrina
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.