O Estreito de Ormuz, uma garganta que a geografia esculpiu entre a Arábia e a Pérsia, não é apenas um corredor marítimo vital; é uma artéria do comércio global, por onde transita o sustento de nações e a energia que move economias. Quando a política internacional, movida por paixões e interesses, instrumentaliza essa passagem crucial, ela ameaça não apenas a paz regional, mas a própria ordem que permite a convivência dos povos.
Os fatos se apresentam em dois atos de pretensão unilateral. De um lado, o “Projeto Liberdade”, anunciado pelo presidente norte-americano, propõe uma escolta naval que, sob o manto de “iniciativa humanitária” e de auxílio a “países neutros e espectadores inocentes”, vem acompanhada da ameaça explícita de uso da força. Diz-se agir “em particular” pelo Irã, mas o próprio governo iraniano o rejeita veementemente, classificando a medida como violação dos entendimentos de cessar-fogo e uma inaceitável intromissão em sua soberania. A retórica, que fala em libertar navios supostamente impedidos, soa mais como uma projeção de poder militar disfarçada do que como um gesto de caridade desinteressada.
De outro lado, o Irã contra-ataca com seu próprio plano de controle, de doze ou quatorze pontos, que, em nome de uma soberania não menos absoluta, impõe restrições draconianas: navios ligados a Israel impedidos de atravessar, embarcações de “países hostis” com passagem negada a menos que paguem reparações de guerra, e um novo regime de licenças oficiais iranianas para todos os demais. Esta postura, que vincula a segurança do estreito ao fim de uma ofensiva militar mais ampla na região, transforma um bem de uso comum em instrumento de chantagem geopolítica. Como se a paz pudesse ser conquistada pela imposição de uma vontade sobre a liberdade de todos os demais.
Aqui, a doutrina da Igreja, estruturada pela sabedoria de São Tomás de Aquino, nos convida a discernir entre a legítima proteção da soberania e a usurpação do direito alheio. A justiça não permite que um estado costeiro, por mais estratégica que seja sua posição, inviabilize o direito universal à passagem inocente por estreitos internacionais, essencial para o comércio e a comunicação entre as nações. A dignidade da pessoa humana e o bem comum dos povos exigem que as vias de circulação sejam governadas por um direito comum, reconhecido e respeitado, e não pela força bruta ou pelo arbítrio de uma única nação. Pio XII, em sua crítica à massificação e à tirania da maioria, já alertava para os perigos de uma ordem global que se esquece dos direitos de todos os homens e de todas as nações.
Chesterton, com sua perspicácia para os paradoxos modernos, talvez sorriria amargamente diante dessa cena. Vê-se a liberdade ser prometida por quem ameaça com a força, e a paz ser negociada por quem impõe bloqueios bélicos. Pretende-se a ordem através de desordens mútuas, e a segurança por meio de gestos que explicitamente escalam o conflito. A veracidade aqui está em xeque: nem a “humanidade” de uma operação militar rejeitada pelo suposto beneficiário, nem a “soberania” que anula o direito de outrem podem ser aceitas sem escrutínio.
Não se trata de cair na dicotomia simplista de “inocentes” contra “culpados”, mas de denunciar a instrumentalização da dor e da economia para fins políticos. A paz não é a ausência de guerra a qualquer custo, mas a tranquilidade da ordem, fruto da justiça. E a justiça, neste contexto, demanda que o Estreito de Ormuz seja um corredor de passagem, não um campo minado de ambições. As “linhas vermelhas” e os “projetos liberdade” unilaterais apenas aumentam o risco de um conflito maior, arrastando consigo não apenas as potências envolvidas, mas também os marítimos “neutros e espectadores inocentes”, as empresas de transporte e, em última instância, os consumidores globais.
As negociações indiretas, que parecem avançar e retroceder a cada anúncio, só encontrarão terreno firme se ambas as partes se despojarem da ilusão de que a imposição de sua vontade — seja por força militar ou por bloqueio comercial — pode gerar um acordo duradouro. A verdadeira justiça para Ormuz reside na ordenação da convivência, e não na exibição da força.
Fonte original: Diário Causa Operária
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.