A rejeição de um nome para o Supremo Tribunal Federal, como a de Jorge Messias na semana passada, é um lance previsível no xadrez político. Contudo, transformá-la numa “derrota inequívoca” ou numa “revelação estratégica” que reordena todo o mapa político do país revela mais sobre a miopia de alguns gabinetes do que sobre a real natureza da oposição ou a profundidade dos problemas nacionais. O que salta aos olhos não é tanto a força do bloqueio, mas a fragilidade do cálculo.
Há um discernimento a ser feito entre o golpe baixo do adversário e o erro de cálculo do próprio punho. É preocupação legítima constatar a instrumentalização de pautas religiosas como tática de mobilização, mas é um erro ainda maior supor que meras sinalizações formais, como a de que “a Bíblia era sua bússola”, sejam suficientes para fissurar blocos de oposição ou para suplantar o corporativismo de uma Corte. A falha na articulação política, a falta de empenho genuíno na indicação, a ausência de um plano B ou de uma narrativa de saída honrosa, tudo isso aponta para uma deficiência primária na prudência governamental.
A verdadeira política, como ensina Santo Tomás de Aquino, é o exercício da reta razão na ação. Ela exige juízo reto sobre o que é bom e útil, discernimento dos meios mais adequados e uma execução firme. Quando um governo, mesmo munido de indicadores macroeconômicos “relativamente favoráveis”, se vê surpreendido por uma derrota de tal magnitude, a questão não é sobre a malícia da oposição, mas sobre a acuidade da inteligência governamental. A acusação de que a oposição “antecipou um golpe” ao rejeitar um nome, em vez de aproveitar uma falha evidente de articulação, é uma racionalização conveniente, que desvia a atenção da autocrítica.
A linguagem carregada, que rotula a oposição de um espectro “do fascismo declarado ao fascismo disfarçado”, ou que fala em “alianças demoníacas” para “conter investigações”, não apenas carece de veracidade factual – beirando a teoria conspiratória – como também revela uma falha de honestidade intelectual. O Papa Pio XII advertia contra a massificação da sociedade, em que o povo se torna massa desprovida de critérios próprios, suscetível a manipulações e caricaturas. Uma liderança que busca o bem da cidade não pode se valer de reducionismos ideológicos para interpretar a complexidade dos desafios, nem para justificar seus próprios tropeços.
O chamado à “guerra cultural” que a nova “revelação estratégica” parece evocar não pode, sob a ótica católica, ser uma guerra de meios ilícitos ou de retórica demonizadora. Se há um “conflito”, ele deve ser travado com veracidade, com humor inteligente, sem crueldade, com coerência estética e com a garantia de não-revanchismo, como nos lembra o corpus da Doutrina Social da Igreja. A sugestão de que o presidente deveria se voltar unicamente para uma base “à esquerda” é uma renúncia à construção de consensos e à busca pela coesão nacional, essenciais para a paz social e para a ordem justa.
A derrota de Messias não é uma iluminação repentina sobre a natureza da política, mas um doloroso lembrete da necessidade permanente de governar com prudência e veracidade. A força de um governo não reside na sua capacidade de demonizar adversários ou de se refugiar em discursos ideológicos, mas na sua competência para ler a realidade com clareza, articular apoios com inteligência e assumir a responsabilidade por seus erros. Somente assim se edifica uma vida comum sólida, não sobre as areias movediças da autojustificação, mas sobre a rocha firme do juízo reto e da ação justa.
Fonte original: Brasil 247
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.