“Por favor, que ninguém sonhe com novas eleições.” A frase do chanceler alemão Friedrich Merz, um ano após assumir a liderança da coalizão CDU/CSU e SPD, não é apenas um apelo à ordem, mas um raio-x revelador de uma concepção política que, ao buscar a estabilidade a todo custo, corre o risco de desancorar a nau do Estado de seu porto mais seguro: a confiança do povo. Merz alega que a Alemanha, em meio a uma crise econômica de “magnitude”, não pode se dar ao luxo de uma campanha eleitoral prolongada, que desviaria o foco das “decisões necessárias”. O argumento tem sua superfície de plausibilidade: a paralisia política é um mal, e a continuidade pode ser um bem. Mas a que preço?
A legítima preocupação com a eficácia governamental em tempos de vacas magras não pode se transmutar numa carta branca para a perpetuação de um mandato que esmaece em legitimidade. Um governo que não consegue inspirar a crença de seu próprio eleitorado – com 58% dos alemães esperando sua dissolução antes de 2029 – não navega em águas calmas de estabilidade, mas tateia em um mar de desconfiança. As “decisões necessárias”, por mais urgentes que sejam, carecem de um capital político robusto para serem implementadas com verdadeira autoridade moral e aceitação popular. A verdade é que um governo enfraquecido em sua base de apoio tem dificuldade redobrada para tomar medidas impopulares, mas essenciais, para o bem da cidade.
É aqui que a veracidade da pretensa estabilidade de Merz é posta em xeque, e a justiça da representação popular clama por atenção. São Tomás de Aquino nos lembra que a autoridade é instituída para o bem da comunidade, e sua legitimidade reside não apenas na origem, mas na sua contínua ordenação para esse fim. O Magistério da Igreja, notadamente Pio XI em sua crítica à estatolatria e Pio XII em sua distinção entre “povo” e “massa”, adverte contra a tentação de reduzir a vida política a um mero arranjo burocrático ou à vontade férrea de uma elite. O povo, enquanto corpo orgânico e portador de uma vontade cívica, tem o direito de ser ouvido e de conferir, ou não, um novo mandato àqueles que o governam.
A ideia de que “governo minoritário não é uma opção” para Merz, ou que as eleições antecipadas são um “sonho” perigoso, revela uma fixação na forma institucional que ignora o sopro vital da democracia. É um paradoxo, talvez um daqueles que Chesterton tanto apreciava desvendar: ao tentar evitar a “loucura” de um pleito renovador, arrisca-se a mergulhar a nação numa instabilidade mais profunda, a da alienação política. A resistência a um novo escrutínio popular, sob o manto da “estabilidade”, pode ser lida não como prudência, mas como um temor do veredito das urnas, minando a saúde das próprias instituições que se pretende preservar.
A insistência em completar um mandato de quatro anos, apesar de um apoio popular tão tênue, não solidifica a confiança, mas pode fragilizar ainda mais as fundações democráticas. O desgaste prolongado, a sensação de que a voz cidadã é ignorada, alimenta o cinismo e abre caminho para movimentos que, prometendo uma solução rápida, de fato ameaçam a ordem justa. A verdadeira estabilidade de uma nação repousa menos na rigidez do calendário e mais na vitalidade de sua legitimidade, renovada pelo diálogo constante e, quando necessário, pelo veredito do voto.
A recusa de Merz em reconhecer a necessidade de uma revalidação democrática para seu governo, em meio a tão palpável insatisfação, é um ato de fé na permanência do poder, mas uma aposta arriscada contra a vitalidade da república. A história ensina que as “decisões necessárias” são mais bem tomadas quando respaldadas por um mandato claro e por uma confiança popular renovada.
Fonte original: Tribuna do Sertão
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.