A diplomacia de grandes potências, tal qual uma cenografia bem-montada, tem o poder de nos iludir com a beleza de suas fachadas, enquanto os alicerces profundos permanecem inabalados. A conversa entre os presidentes Lula e Trump, na Casa Branca, foi apresentada como um encontro de “química” e “otimismo”, um balé polido onde os passos foram coreografados para a plateia global. Mas sob a superfície da boa-vontade declarada, as rochas da assimetria de poder e dos interesses nacionais irredutíveis continuam a demarcar o terreno, exigindo uma boa dose de veracidade para além da narrativa conveniente.
Não se nega o valor do diálogo em si. É, de fato, a vocação de qualquer estadista buscar a solução pacífica e o entendimento mútuo. O elogio à “química” pessoal e a declaração de “otimismo” do presidente brasileiro, repercutidos pela imprensa europeia, podem ser compreendidos como a busca legítima por distensionar as relações. Contudo, a arte da diplomacia não se esgota nas impressões subjetivas dos atores. A Doutrina Social da Igreja, desde Pio XI, adverte contra as ilusões de um internacionalismo abstrato que ignora as realidades do poder e as legítimas autonomias, preconizando uma justiça que seja concreta nas relações entre os povos, especialmente entre desiguais.
Observe-se o impasse comercial. Lula propõe um prazo de 30 dias para solucionar as tensões envolvendo tarifas e a investigação da Seção 301, chegando a afirmar que parte das acusações americanas “não tem procedência”. A disposição para negociar é virtuosa. Todavia, a realidade do instrumento legal americano (Seção 301) confere aos Estados Unidos uma prerrogativa unilateral que o Brasil não possui. A veracidade exige que se reconheça a desproporção: não se trata de uma simples disputa entre pares, mas de uma relação onde a capacidade de coerção econômica de um lado é substancialmente maior. Reduzir a complexidade a uma questão de boa vontade ou mera divergência técnica pode subestimar a persistência dos interesses econômicos de uma potência global.
A cooperação em segurança na Amazônia, com a sugestão de uma base em Manaus, é outro ponto que convoca a um juízo atento. Se por um lado o combate ao crime organizado e ao tráfico de drogas é um imperativo de justiça e bem comum, por outro, a integração proposta com uma potência militar e tecnológica como os EUA impõe um desafio de fortaleza. É preciso assegurar que a defesa de nossa soberania e o controle de nossa inteligência estratégica não se diluam em uma parceria onde o parceiro mais forte pode, ainda que inconscientemente, sobrepor seus próprios interesses aos do país anfitrião. Pio XII já alertava sobre a diferença entre “povo” e “massa”, e como a massificação pode levar à perda de identidade e autonomia.
Finalmente, a aspiração do Brasil em atuar como mediador em conflitos internacionais, entregando a Trump uma cópia do acordo de 2010 com Irã e Turquia, e a defesa da reforma do Conselho de Segurança da ONU, são gestos que expressam uma legítima “vocação de diálogo”. Mas a veracidade nos força a perguntar pela efetividade dessa vocação frente à estrutura geopolítica vigente. Criticar o modelo de 1945 é justo, mas o poder de veto dos cinco membros permanentes da ONU não é uma questão de “química”, mas de arquitetura de poder consolidada. As diferenças de visão sobre o Irã, por exemplo, não se desfazem com otimismo diplomático; exigem negociação persistente e uma magnanimidade que não confunda desejo com realidade, nem capacidade de influência com mera boa intenção.
A verdadeira diplomacia, à luz da Doutrina Social da Igreja, não é a arte do disfarce, mas a ciência da veracidade e da justiça, onde os interesses legítimos de cada nação são negociados com respeito e firmeza, e onde a busca pelo bem comum internacional não se confunde com a ilusão de uma harmonia superficial. A “química” é agradável, mas os alicerces de poder não cedem a ela. O Brasil, em sua busca por um lugar no cenário global, deve trilhar o caminho da negociação incansável, mas sem jamais abandonar a clareza sobre suas próprias capacidades e sobre as persistentes assimetrias que governam as relações entre os Estados. A esperança não se apoia em miragens, mas em uma avaliação sóbria do terreno.
Fonte original: Jornal Grande Bahia (JGB)
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.