A recente sucessão de eventos, que se entrelaçam como fios de uma teia intrincada – do mais sórdido escândalo financeiro às decisões de agências reguladoras, passando por encontros diplomáticos e pesquisas eleitorais –, desenha um cenário em que a vida pública parece ser reduzida a um grande tabuleiro de xadrez político. A cada movimento, a questão central não é a justiça ou a verdade intrínseca, mas o impacto na próxima eleição, na próxima aliança, no próximo placar. Essa obsessão pela lógica eleitoral, que permeia análises e discursos, ameaça corroer o que há de mais essencial para a saúde de uma nação: a confiança na ordem moral e na integridade de suas instituições.
O caso do senador Ciro Nogueira e do Banco Master, com as operações da Polícia Federal a descortinar um suposto “mensalão”, emendas legislativas escritas no gabinete do próprio banqueiro e aquisições imobiliárias vultosas, é um flagrante da corrupção que insiste em infestar os corredores do poder. Não se trata de uma mera falha individual, mas de um sistema que se organiza para subtrair o patrimônio público e perverter a função da lei. A proposição de delação premiada, que por vezes mais se assemelha a uma barganha política do que a uma busca pela revelação plena da verdade, só aprofunda a percepção de que a justiça é um artigo maleável nas mãos dos poderosos, um espetáculo de sombras onde a impunidade frequentemente sorri ao fim da peça. Aqui, a ausência de uma justiça comutativa e distributiva clara e firme deixa um rastro de desconfiança que é difícil de apagar.
Em paralelo, a polêmica envolvendo a Anvisa e a empresa Ypê ilustra o perigo da instrumentalização. Independentemente da existência de um risco sanitário real – que deve ser sempre o norte de qualquer órgão regulador –, a rapidez com que a narrativa se inclina para a retaliação política, com insinuações de “coincidência” e apelos a boicotes ideológicos, é um sintoma alarmante. Quando cada ação do Estado é imediatamente decodificada como um golpe ou contragolpe partidário, a autoridade legítima das instituições se esvai, e a veracidade dos fatos é sacrificada no altar da conveniência política. A verdade, que deveria ser o guia inabalável da esfera pública, é tratada como mera ferramenta discursiva, um adereço descartável na arena eleitoral.
Mesmo no palco internacional, a política interna projeta suas sombras. O encontro entre o presidente brasileiro e o ex-presidente americano, descrito com uma “afinidade” quase romântica, mostra como o pragmatismo da realpolitik pode subverter princípios e alianças de longa data, tudo em função de interesses eleitorais cruzados. A postergação de decisões cruciais ou a evitação de temas espinhosos para não desagradar este ou aquele bloco político revelam uma diplomacia que, em vez de edificar uma ordem global pautada pela justiça e pela solidariedade, oscila ao sabor das pesquisas e das conveniências pessoais dos chefes de Estado.
O verdadeiro problema, portanto, não reside apenas nos fatos individuais, por mais graves que sejam, mas na “gramática” com que a sociedade os lê e os processa. A constante filtragem de todos os acontecimentos através da lente da polarização eleitoral esvazia a vida pública de seu sentido transcendente, reduzindo-a a uma disputa tribal onde princípios são substituídos por paixões e a reta razão cede lugar ao puro cálculo de poder. É a crítica à estatolatria, como Pio XI admoestava, quando o Estado e suas ramificações deixam de servir ao povo para se tornarem instrumentos de facções, perdendo a autoridade moral que lhes é devida. A vida social não pode ser um mero jogo de soma zero.
Diante desse quadro, a tarefa de reconstrução não é meramente política, mas essencialmente moral. Exige-se das autoridades a mais estrita justiça em suas ações, a veracidade inegociável em suas declarações e a humildade de reconhecer que o bem da cidade transcende em muito as ambições de qualquer partido ou indivíduo. A cidadania, por sua vez, precisa cultivar o discernimento para separar o que é intriga política do que é problema moral real, exigindo das instituições a autonomia e a integridade que lhes são próprias, sem cair na tentação do ceticismo corrosivo que mina todo o edifício social.
Não se trata de negar a política, mas de elevá-la, lembrando que a perseguição da verdade e da justiça é o único caminho para que a ordem pública floresça em bases sólidas e duradouras.
Fonte original: O Globo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.