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Ivanir dos Santos: Fé e Resistência Política sob Lupa Católica

Ivanir dos Santos é voz contra racismo e intolerância. O artigo celebra sua luta, mas analisa criticamente sua visão da fé como resistência política e as distinções da Doutrina Social da Igreja.

🟢 Análise

A vida de Ivanir dos Santos, babalaô e professor da UFRJ, é um nó de resistência e superação, tão intrincado e profundo quanto os nós que amarram a história do Brasil à memória escravizada. Nascido na Favela do Esqueleto, retirado da mãe aos sete anos, marcado pela violência do Estado que lhe tirou a genitora e forjou seu suicídio, Ivanir ergueu-se de um caminho de abandono para se tornar uma voz internacional contra a intolerância religiosa e o racismo. Sua trajetória, coroada por prêmios e pelo encontro com o Papa Francisco, é um testemunho irrefutável da dignidade humana que insiste em florescer mesmo sob as botas da opressão.

Contudo, a justa celebração de um percurso tão singular não nos exime de distinguir o que é fato heroico e luta legítima do que pode se tornar uma reinterpretação estreita ou mesmo instrumentalizadora da fé. Ivanir afirma que sua “fé é resistência política”, e que “tudo começa na África”, inclusive o constructo religioso dos povos hebreus, num universalismo de raízes que busca honrar a civilização africana. É aqui que o Polemista Católico precisa, com toda a veracidade e justiça que a doutrina exige, fazer as devidas distinções.

A luta de Ivanir dos Santos contra o racismo e a intolerância religiosa não é apenas necessária; ela é um imperativo moral que a Doutrina Social da Igreja sempre subscreveu. A liberdade religiosa, conforme ensina o Magistério, não é uma concessão do Estado, mas um direito inalienável da pessoa humana, fundado na própria natureza racional, que reconhece o dever de buscar a verdade e, uma vez conhecida, de a ela aderir. A intolerância, o preconceito e a violência contra qualquer fé são ataques diretos à dignidade da pessoa humana e à ordem social justa que, segundo Leão XIII, repousa sobre a liberdade ordenada e o respeito mútuo.

Todavia, reduzir a fé à sua dimensão de “resistência política”, por mais potente e relevante que essa dimensão possa ser em contextos de opressão, é encurtar seu horizonte e empobrecer sua natureza intrínseca. A fé, em sua essência, é a resposta humana à Revelação divina, um caminho de busca pela transcendência, pela comunhão com o Sagrado e pela salvação da alma. Suas manifestações rituais, sua cosmovisão, suas práticas de cura e coesão comunitária não são meros instrumentos de combate político, mas fins em si mesmos, expressões de uma relação com o divino que preexiste e transcende qualquer regime. Se a fé inspira a luta por justiça e caridade, ela não pode ser instrumentalizada por ela, pois sua fonte e seu objetivo são de outra ordem. Como ensina São Tomás de Aquino, a virtude da religião tem por fim dar a Deus o que Lhe é devido, e esta é a sua principal e mais nobre finalidade.

A afirmação de que “tudo começa na África”, e que “todo o constructo religioso — inclusive o dos povos hebreus — tem raízes africanas”, embora busque valorizar uma herança cultural oprimida, incorre no risco de uma generalização que desconsidera as narrativas de origem e as teologias intrínsecas de outras tradições. A Igreja Católica, em seu diálogo inter-religioso, acolhe os “raios da Verdade” presentes nas diversas culturas e religiões, reconhecendo a universalidade da busca humana por Deus. No entanto, ela não pode endossar uma reinterpretação que dilua a especificidade da Revelação bíblica e da Encarnação de Cristo, que possuem uma historicidade e uma teologia próprias, irredutíveis a uma única origem geocultural para “todo” o constructo religioso. O respeito à diversidade das fés, que Ivanir tão bem defende, deve aplicar-se também à singularidade de suas verdades e narradiwas.

Por fim, a voz de Ivanir dos Santos, agora legitimada pela academia e por prêmios internacionais, embora essencial para a amplificação das pautas das comunidades de matriz africana, carrega o ônus de não eclipsar a diversidade interna dessas próprias comunidades. Pio XII advertia contra a massificação que anula as vozes individuais e a pluralidade vital do “povo”. A representatividade genuína exige que o reconhecimento público não se torne um filtro que homogeneíza os “saberes e prioridades” multifacetados daqueles que o líder representa, transformando uma tapeçaria rica em um estandarte de uma cor só.

É inegável que a fé de Ivanir dos Santos foi e continua sendo uma forma poderosa de resistência, um escudo contra a injustiça e uma bússola em sua vida atribulada. Mas a luta pela liberdade religiosa e pela superação do racismo deve ser acompanhada de uma clareza conceitual que não reduza a complexidade da experiência espiritual nem nivele as distinções teológicas. A fé, para ser plena, precisa ser livre não apenas de opressão externa, mas também de instrumentalização interna, para que possa cumprir seu destino mais alto: a busca e o encontro com o Criador.

Fonte original: racismoambiental.net.br

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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