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Irã: Teocracia Revolucionária e a Coesão do Regime

A dicotomia 'moderados vs. linha-dura' obscurece a política do Irã. O regime opera com coesão sob o Líder Supremo, com objetivos estratégicos unificados. Entenda a teocracia.

🟢 Análise

A tapeçaria da política internacional, intrincada e multifacetada, raramente se desenrola em padrões simples de preto e branco. Quando as negociações entre potências globais e o Irã estagnam, como agora se observa entre Washington e Teerã, a tentação é pintar o cenário com o pincel fácil das dicotomias: “linha-dura” contra “moderados”. Essa simplificação, contudo, mais obscurece do que revela a verdade de uma realidade complexa, onde a desconfiança é uma moeda antiga e os alvos estratégicos do regime iraniano transcendem a alternância superficial de personalidades.

O Irã, longe de ser um palco de batalha ideológica entre facções com objetivos fundamentalmente distintos, opera sob uma hierarquia onde a visão revolucionária é o motor e o baluarte. Personagens como Ahmad Vahidi, o comandante-chefe da Guarda Revolucionária — um homem buscado pela Interpol por seu suposto papel no atentado terrorista de Amia, e figura central na repressão interna —, ou Saeed Jalili, o ex-chefe negociador nuclear que perdeu parte da perna em combate, não são meros radicais isolados. Eles são expressões da coluna dorsal institucional e ideológica do regime. A declaração de Jalili, de que “No nosso Irã não existem linhas duras nem moderados. Todos nós somos ‘iranianos’ e ‘revolucionários’, e com a unidade de ferro entre povo e Estado, em completa lealdade ao Líder Supremo da Revolução, obrigaremos o agressor criminoso a se arrepender”, embora retórica, aponta para uma coesão interna que os observadores externos subestimam por sua conta e risco. O erro está em projetar sobre Teerã a lógica de governos ocidentais, onde a eleição de um presidente com discurso mais palatável, como Masoud Pezeshkian, ou a atuação de um ministro do Exterior experiente como Abbas Araghchi, significa uma mudança real nos rumos estratégicos definidos pelo Líder Supremo, Mojtaba Khamenei, e pela Guarda Revolucionária.

Aqui reside o ponto crucial que a busca pela `veracidade` nos impõe: o sistema político iraniano é uma teocracia revolucionária onde o Líder Supremo detém controle efetivo sobre as Forças Armadas, a Guarda Revolucionária, o Judiciário e a política externa estratégica. O presidente eleito está hierarquicamente abaixo, e sua função é mais de gerenciamento tático do que de definição doutrinária. Pio XII, ao distinguir o “povo” da “massa”, nos oferece uma lente para enxergar essa dinâmica. O povo, com suas aspirações legítimas e sua capacidade de agir por si, é frequentemente instrumentalizado e transformado em massa, cujo consentimento é manipulado para fins ideológicos do Estado. O regime, em sua busca por solidificação, forja uma “unidade de ferro” que, na prática, esmaga a liberdade genuína e a pluralidade saudável. A aparente oscilação entre “negociadores” e “defensores da revolução” é muitas vezes uma dança orquestrada para lidar com pressões externas, sem desviar-se do objetivo final de autopreservação e projeção de poder regional e ideológico.

A desconfiança iraniana nas garantias ocidentais não é irracional, mas um resultado direto de experiências passadas, como a saída unilateral dos EUA do acordo nuclear (JCPOA) sob a administração Trump. Essa ação, por mais que se possa argumentar sobre seus méritos, cimentou na memória iraniana a fragilidade da palavra ocidental e a volubilidade da política externa americana. Ignorar esse fator histórico é cair numa ingenuidade que compromete a busca por qualquer `justiça` ou solução duradoura. Para Teerã, figuras como Ghalibaf, que conduziu as primeiras negociações diretas com os EUA no Paquistão, ou Araghchi, que foi o chefe negociador do JCPOA em 2015, são peças no xadrez de uma estratégia mais ampla, não agentes de uma agenda “moderada” em oposição radical ao Líder Supremo.

A Doutrina Social da Igreja sempre alertou para os perigos da estatolatria, a idolatria do Estado que absorve em si todas as esferas da vida. No Irã, essa estatolatria assume a forma de uma teocracia revolucionária que instrumentaliza a fé e a identidade nacional para consolidar seu poder. A repressão brutal de protestos, como os de “Mulher, Vida, Liberdade”, sob a batuta de figuras como Vahidi, é um testemunho da falta de uma `ordem moral pública` baseada no respeito à dignidade humana e na liberdade ordenada que Leão XIII tanto defendeu. O sofrimento do povo iraniano sob sanções e a constante instabilidade regional são as consequências amargas dessa intransigência e da recusa mútua em reconhecer a complexidade do outro.

Não é possível construir uma paz duradoura se o diálogo internacional for baseado em ilusões ou em rótulos que não espelham a realidade do poder. A verdadeira paz social, aquela que brota do reconhecimento da verdade e da busca pela justiça para todos, exige que as potências ocidentais encarem o Irã com o discernimento necessário para ver além das fachadas. Não se trata de endossar ou condenar um regime, mas de lidar com ele a partir de sua natureza intrínseca, compreendendo que as divisões internas são mais táticas do que existenciais e que o fio condutor da Revolução Islâmica permanece firme nas mãos do Líder Supremo.

É no reconhecimento dessa realidade, despojada de espelhos e falsas dicotomias, que se pode construir uma paz verdadeira.

Fonte original: O Povo

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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