O tabuleiro global, onde se movem potências e se traçam destinos, é muitas vezes um palco onde a veracidade dos fatos é a primeira vítima. As tensões entre Estados Unidos e Irã, que oscilam entre propostas diplomáticas e a ameaça de guerra, revelam um labirinto onde a busca pela justiça é obscurecida por narrativas viciadas e pela dramática assimetria de poder.
É imperioso reconhecer que as preocupações com a violação dos direitos humanos no Irã são legítimas e urgentes. O caso de Narges Mohammadi, advogada laureada com o Nobel da Paz e cuja vida está em risco iminente devido à intransigência de seu governo, é um grito que não pode ser silenciado. As execuções por suposta espionagem, precedidas por julgamentos a portas fechadas, conforme denunciam grupos de direitos humanos, expõem uma grave falha no devido processo legal e um desprezo pela dignidade intrínseca da pessoa humana. O Estado, no Irã, exerce um poder absoluto sobre seus cidadãos, e a justiça parece estar a serviço da razão de Estado, e não da lei moral.
Contudo, a condenação desses atos bárbaros não pode nos cegar para a complexidade da geopolítica que os circunda. A cronologia dos fatos, como apresentada, mostra que a “guerra” iniciada por EUA e Israel em fevereiro, e o bloqueio naval subsequente em abril, precederam as ações iranianas de fechamento do Estreito de Ormuz. Não se trata de legitimar a opressão, mas de exigir honestidade intelectual: as “provocações” iranianas, por mais condenáveis que sejam em si, não emergiram do vácuo, mas muitas vezes como reações a atos de agressão ou pressão econômica externa. Ignorar essa causalidade é reduzir a história a um teatro de bons e maus, desconsiderando a teia de relações que engendra escaladas.
A retórica de “preço alto a pagar” pelos “últimos 47 anos”, proferida pelo presidente americano, é um exemplo eloquente de reducionismo histórico. Ela varre para debaixo do tapete décadas de intervenções externas e as raízes do ressentimento iraniano, simplificando dramaticamente uma história complexa em uma fórmula que justifica ações punitivas sem um exame crítico. A mídia, em sua pressa por simplificar, muitas vezes ecoa essas narrativas, transformando conflitos multifacetados em maniqueísmos que apenas servem aos interesses de uma das partes. Pio XII, em sua crítica à massificação, advertia para o perigo de uma comunicação irresponsável, que anula a capacidade do povo de discernir e julgar com retidão.
A paz, na ordem católica, não é a mera ausência de guerra, mas a tranquilidade da ordem, fruto da justiça. Essa ordem exige que as nações, grandes e pequenas, se submetam a uma lei moral que precede os interesses particulares. As sanções econômicas e os bloqueios navais, por mais que visem “privar Teerã da receita do petróleo”, não podem ser indiferentes ao sofrimento da população civil iraniana, que arca com o peso real dessas medidas. A justiça social, como ensinada por Pio XI, exige que os fardos sejam distribuídos equitativamente e que a ação política não gere miséria para aqueles que já vivem sob um regime opressor. O princípio de subsidiariedade nos lembra que, ao lidar com a autonomia das nações, a ingerência externa deve ser a exceção, não a regra, e sempre com vistas ao bem comum e à justiça.
Nesse cenário de desconfiança mútua e escalada, a busca por uma solução demanda uma dose de magnanimidade e, sobretudo, de veracidade. Quais os termos exatos das propostas? Qual a justificação real para o “início da guerra”? Como se garante o devido processo legal para os acusados? A opacidade em torno dessas questões corroi a já frágil base de qualquer negociação. Um caminho para a verdadeira paz só pode ser pavimentado com o reconhecimento pleno da humanidade do outro, mesmo do adversário, e com a adesão firme à justiça para todos, sem distinções convenientes. O custo da omissão, em ambos os lados, pode ser a perda irreversível de vidas e a instabilidade de uma região já tão martirizada.
A verdadeira ordem exige mais do que a força dos impérios; exige a luz da verdade para iluminar as complexas teias da responsabilidade.
Fonte original: GZH
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.