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Guerra, Moral e Geopolítica: A Recusa do ‘Inimigo do Meu Inimigo’

Em guerras como Ucrânia e Irã, a lógica 'inimigo do meu inimigo' turva distinções morais. Defende-se uma terceira via: recusa ativa de alianças táticas com regimes opressores. Priorize princípios.

🟢 Análise

É uma ironia cruel da história quando o desejo de não ser cúmplice de um mal nos empurra, pela lógica torcida do “inimigo do meu inimigo”, para os braços de outro. No turbilhão das guerras que assolam a Ucrânia há quatro anos e agora deflagam no Irã, o mundo polarizado exige uma tomada de posição que, em sua ânsia de clareza, turva as distinções morais mais elementares. A pressão é intensa: de um lado, a OTAN, os Estados Unidos e seus aliados; de outro, a Rússia de Putin e o Irã dos aiatolás. E, no meio, emerge a voz dos “nem-nem”, daqueles que recusam a adesão acrítica a qualquer um dos polos. Mas esta recusa, frequentemente taxada de ingenuidade ou covardia, pode, na verdade, ser um ato de sanidade moral contra a loucura lógica das ideologias.

Os fatos são implacáveis. A guerra na Ucrânia se arrasta, e agora o Oriente Médio ferve com os ataques aéreos contra o Irã. Há uma máquina militar ocidental imponente em ação, e há regimes em Teerã e Moscou que, sem dúvida, desafiam essa hegemonia. A tentação de reduzir a complexidade a uma simples equação — “quem se opõe ao meu opressor é meu aliado” — é um atalho perigoso. Reduzir a luta por justiça a um mero tabuleiro geopolítico é um reducionismo que ignora a dignidade da pessoa humana e a verdadeira ordem dos bens. A Doutrina Social da Igreja, desde Leão XIII a Pio XII, sempre advertiu contra a estatolatria e a redução do “povo” a uma “massa” a ser manipulada por interesses de Estado.

É legítimo e até necessário questionar se o alinhamento com a Rússia de Putin ou com o regime dos aiatolás no Irã, ambos conhecidos por suas opressões internas e por violações sistemáticas dos direitos humanos, pode ser considerado uma vitória para a liberdade ou a autodeterminação. A autêntica luta pela justiça não pode instrumentalizar tiranos sob o pretexto de combater outros. Se a bandeira do “anti-imperialismo” serve para justificar a repressão de dissidentes, a ausência de liberdade política e a manutenção de regimes autoritários, então essa bandeira se torna um pálido reflexo dos ideais que pretende defender.

São Tomás de Aquino nos ensina que o bem é a causa final da ação, e que os meios devem ser proporcionais e moralmente lícitos para alcançar esse fim. A busca pela paz justa e pela liberdade dos povos não pode ser pavimentada com alianças que legitimam a opressão. A justiça exige que condenemos a agressão, venha ela de onde vier, e que defendamos os princípios universais da lei natural, que incluem a integridade territorial das nações e a inviolabilidade da vida humana. A fortaleza não consiste em escolher o “menos pior” entre dois males intrínsecos, mas em manter-se firme nos princípios, recusando a pactuação com regimes que violam sistematicamente a moral e a dignidade de seus próprios cidadãos.

A busca por uma “terceira posição” ou por um “terceiro caminho” que não se alie a nenhum dos blocos de poder que instrumentalizam povos e nações não é uma miragem abstrata, mas um imperativo moral. Não se trata de uma passividade ingênua, mas de uma recusa ativa em participar de lógicas que transformam seres humanos em meros peões no jogo de poder. A verdadeira solidariedade se manifesta na defesa dos fracos e na busca de um ordenamento social que respeite a subsidiariedade, permitindo que as comunidades floresçam sem serem esmagadas por potências externas ou por regimes internos. É um trabalho paciente de construção da ordem moral e da paz verdadeira, fundada não em equilíbrios de forças bélicas, mas na reta razão e na caridade.

Rejeitar os “nem-nem” como uma capitulação é, muitas vezes, capitular à falsa dicotomia que nos é imposta. A real capitulação ocorre quando a consciência se curva diante da conveniência tática e aceita que, para lutar contra um mal, é preciso abraçar outro. A via cristã, por outro lado, convida a uma magnanimidade que busca edificar o reino da justiça e da paz onde quer que esteja, sem concessões à tirania, seja ela militar, econômica ou ideológica.

A verdadeira vocação do homem é a liberdade ordenada ao bem, e isso exige a coragem de não escolher nenhum dos dois venenos, por mais que se apresentem como antídotos um do outro.

Fonte original: Diário Causa Operária

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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