A balança da política, por vezes, pende para um lado com a força bruta da necessidade, e para outro com o peso imponderável dos princípios. No cenário recente do poder nacional, o governo, após reveses notáveis no Congresso – da rejeição de um nome para o Supremo Tribunal Federal à derrubada de um veto em matéria sensível –, orquestra um movimento de reaproximação com figuras-chave do Legislativo. A intenção declarada é “seguir a vida”, garantir a governabilidade e a aprovação de projetos essenciais antes do próximo ciclo eleitoral, buscando restabelecer canais de diálogo que pareciam rompidos.
É um expediente familiar à dinâmica parlamentar, onde a aritmética dos votos comanda o passo das agendas. No entanto, a mera busca pela governabilidade, quando descolada de um firme juízo de valor, pode transformar a arte política num jogo de soma zero, onde concessões estratégicas erodem a solidez moral das instituições. Não se trata de negar a importância da negociação – inerente à democracia representativa e, em si, um mecanismo de pacificação. Mas é preciso perguntar a que custo e com que propósitos essa negociação se dá, especialmente quando envolve atores que atuaram ativamente para barrar pautas consideradas cruciais pelo próprio Executivo.
A preocupação legítima que emerge é se essa reaproximação não arrisca diluir a fronteira entre a legítima oposição e a obstrução sistemática, transformando o “pragmatismo” em uma licença para recompensar a instabilidade. A transparência nos termos dessas barganhas de bastidores, frequentemente obscuras, torna-se um imperativo de honestidade. O eleitorado, ao confiar seu voto a uma proposta de governo, espera que os valores e a coerência programática não sejam sacrificados no altar de uma “governabilidade” que pode, no fim das contas, legitimar ações contrárias ao espírito da gestão eleita e, mais grave, à integridade institucional.
Aqui, o discernimento cristão nos interpela. Pio XI, em sua crítica à estatolatria, recordava que o Estado, ainda que necessário, não é um fim em si mesmo, e que a justiça social exige a consideração da ordem dos bens, não a simples eficácia material. Pio XII, ao distinguir entre “povo” e “massa”, alertava que a verdadeira representação política se funda numa comunidade orgânica, consciente de seus deveres e direitos, e não numa massa atomizada cujos representantes são movidos por interesses casuísticos ou pela força do momento. A política, em sua essência, não pode reduzir-se a um mero cálculo tático; ela precisa estar ancorada naquilo que é devido ao destino comum da nação, que é a instauração de uma ordem justa.
Não se trata de exigir uma pureza ideológica inviável no parlamento, mas de um compromisso inegociável com a integridade do processo público. A justiça não se satisfaz com o silêncio complacente diante de atos que comprometem a autonomia de poderes ou a responsabilidade dos eleitos. A reaproximação, para ser virtuosa, deve ter como meta a construção de um ambiente de colaboração ordenado, e não uma trégua precária que legitime o abuso de poder ou a erosão dos princípios. O desafio é reconstruir pontes sem desmoronar os pilares da casa.
Que a necessidade do governo não se converta na desculpa para qualquer barganha. O que se espera, em vez de uma capitulação, é uma demonstração de fortaleza e discernimento político que saiba diferenciar o que é essencial do que é acessório, e o que é o bem da cidade do que é o interesse momentâneo. A política que serve ao homem, e não a si mesma, sabe que o caminho mais longo da verdade é, muitas vezes, o atalho mais seguro para a paz.
A verdadeira governabilidade não se compra com acordos velados, mas se constrói na paciente adesão à justiça e na coragem de sustentar a verdade.
Fonte original: Brasil 247
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.