A mera contagem de votos, por mais festiva que seja a urna, não garante o exercício da liberdade quando o chão da vida política está minado pela guerra e pela manipulação. As eleições municipais em Deir al-Balah, Gaza, que se avizinham, são menos um farol de autogoverno e mais uma réstia de luz bruxuleante em um cenário de escombros, onde a vontade popular se vê enredada numa trama de poder e desespero. O chamado às urnas ocorre em meio a um conflito que já se arrasta por anos, em um território marcado pela devastação e por profundas assimetrias de poder.
É inegável a aspiração genuína de “mudar a realidade imposta” e “melhorar o país”, como expressam os moradores de Deir al-Balah. Essa eleição, a primeira em Gaza desde 2006, poderia ser um sinal de resiliência palestina e um passo rumo à normalização. Contudo, essa legítima busca por governança local se choca com uma realidade de condições extremamente adversas. Deir al-Balah, uma das poucas cidades poupadas da invasão terrestre, oferece um cenário anômalo, mas não imune às forças que moldam o destino de toda a Faixa de Gaza.
A questão central de veracidade impõe-se: pode-se falar em liberdade de escolha quando uma facção dominante como o Hamas, embora não apresente uma lista formal por objeções a um decreto da Autoridade Palestina que exige o reconhecimento de Israel, controla a segurança local e influencia a paisagem eleitoral? A presença de “candidatos pró-Hamas” e a mobilização de suas forças para “garantir a segurança” dos locais de votação introduzem um elemento de constrangimento que distorce a livre manifestação da vontade. A ausência de invasão direta não equivale à liberdade de autodeterminação, especialmente quando mais de 53% de Gaza ainda está sob controle israelense, e o restante, em grande parte, devastado. A escolha que se apresenta ao eleitor, neste contexto, pode ser menos um voto de convicção e mais um ato de busca desesperada por alguma estabilidade, por mais precária que seja.
A tentação de considerar tais eleições como um endosso à legitimidade de grupos políticos, ou como um passo decisivo rumo à reconstrução, é um reducionismo perigoso. O próprio plano dos Estados Unidos para um “Conselho de Paz” de tecnocratas apolíticos, que busca ditar o futuro da governança de Gaza de cima para baixo, sem considerar a voz local e a história recente, revela a desconfiança em processos orgânicos. A verdadeira justiça e a dignidade da pessoa humana em Gaza não serão construídas sobre a conveniência de uma eleição de fachada, onde a assimetria de poder entre Israel, Hamas e Autoridade Palestina distorce a soberania popular e a liberdade ordenada. A voz do povo, em um território tão ferido, corre o risco de ser instrumentalizada para validar arranjos de poder, em vez de expressar livremente o bem comum.
É preciso um exercício de veracidade implacável para distinguir a resiliência genuína da instrumentalização política. A liberdade ordenada, como ensina a Doutrina Social da Igreja, requer não apenas a ausência de coação externa, mas a presença de condições morais e institucionais que permitam aos cidadãos deliberar e escolher o bem de forma autêntica. Ignorar tais condicionantes é confundir a forma com a substância, o gesto com a verdade. Uma eleição sob estas circunstâncias arrisca-se a ser um cenário que reflete não a autêntica vontade de um povo livre, mas a imagem fragmentada e esvaziada de um território em agonia.
O caminho para a restauração da dignidade palestina e para uma paz duradoura em Gaza não começa com um voto constrangido nas ruínas, mas com o restabelecimento da justiça, da verdade e da liberdade ordenada para todos, erguida sobre alicerces que o fragor da guerra não pode abalar.
Fonte original: Brasil 247
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
Artigos Relacionados
Virgínia: Voto Popular Distorce Representação Eleitoral
Deportação de Asilados: EUA Criam Limbo Humano no Congo