Por vezes, a pena se antecipa à história, e o que deveria ser um registro dos fatos presentes converte-se em oráculo do que poderia ser, para então julgar esse futuro hipotético como se ele já nos esmagasse sob seu peso. É um exercício que troca a solidez da veracidade pela plasticidade da projeção ideológica, um desvio perigoso na via da razão pública. Quando uma análise se baseia em um segundo mandato presidencial ainda por vir, e dele extrai disputas intestinas e usos espúrios do aparato estatal, ela pisa em areia movediça. As alegações de perseguição a um ex-diretor do FBI, de pressões a um presidente do Banco Central ou de censura a comediantes, embora gravíssimas em princípio, perdem sua ancoragem no mundo do ser para flutuar no mar do talvez, e isto, em tempos de tanta incerteza, é um risco que não podemos correr.
Não se diminui, contudo, a legítima preocupação com a instrumentalização do Estado para fins partidários ou pessoais. A tentação de usar as engrenagens da justiça para esmagar adversários é uma chaga antiga e sempre presente, que corrói a confiança pública e desfigura a ordem social. Seja contra um ex-funcionário, um crítico midiático ou um líder financeiro, a violação da isenção devida às instituições é um mal que precisa ser denunciado com vigor, não importa quem esteja no poder. O foco obsessivo em querelas pessoais, enquanto o país enfrenta desafios econômicos ou se vê arrastado para conflitos internacionais, revela uma inversão de prioridades que é censurável sob qualquer prisma de governo justo e competente.
Mas para combater o mal real, é preciso discernir o real do fabricado. Quando a esfera pública se habitua a tratar meras previsões ou narrativas enviesadas como “fatos verificados”, ela deseduca o cidadão. Pio XII já advertia sobre a distinção crucial entre o povo, capaz de juízo ponderado e ação responsável, e a massa, amorfa e sujeita à manipulação de quem domina os meios de comunicação. O risco não é apenas a desinformação pontual, mas a atrofia da razão cívica, que, acostumada a consumir ficções travestidas de notícia, perde a capacidade de distinguir entre a luz da verdade e as sombras da propaganda.
A sanidade, como diria Chesterton, consiste em ver uma coisa tal como ela é, e não como gostaríamos que ela fosse ou como a imaginação febril de algum polemista a pintou. O espetáculo de uma narrativa que constrói um futuro para, em seguida, condená-lo com veemência, revela uma soberba intelectual que se arroga o direito de moldar a realidade, em vez de humildemente compreendê-la. Não é apenas um erro de cálculo político ou uma astúcia retórica, mas uma falha profunda contra a veracidade que sustenta a própria civilidade.
A vida política, por mais turbulenta que seja, exige uma base sólida de fatos e uma busca incessante pela verdade. É sobre isso que se constrói a liberdade ordenada de Leão XIII, a subsidiariedade de Pio XI, e a própria possibilidade de um debate público frutífero. Quando se troca essa base por projeções enviesadas e acusações sem lastro na atualidade, não se está fortalecendo a crítica construtiva, mas envenenando as fontes da própria razão e da confiança social. A honestidade intelectual não é um luxo, mas o alicerce sem o qual qualquer projeto de justiça e bem comum se desmorona.
A verdadeira batalha de nosso tempo, antes mesmo de se debater qual governo é melhor ou pior, é a batalha pela integridade da realidade. Sem ela, restam apenas ecos e sombras, em que qualquer tirania de opinião pode reinar soberana.
Fonte original: Tribuna do Sertão
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.