O candidato James Fishback surge na cena política da Flórida prometendo uma revolução anti-establishment, um levante contra a burocracia e a intromissão estatal. Contudo, ao desdobrar sua plataforma, revela-se um paradoxo intrigante: sob o manto de uma retórica libertária, propõe uma intervenção governamental capilar e autoritária em esferas da vida pessoal que o Estado, por sua própria natureza e limites, não deveria controlar. A questão, portanto, não é se é possível defender certas ideias com vigor, mas se a liberdade pode ser construída destruindo os alicerces da própria liberdade.
A linguagem de Fishback é, por si só, um campo minado. Chamar um adversário político negro de “escravo”, mesmo que alegando uma conotação “política” e não “racial”, ou empregar a gíria antissemita “goyslop” para se referir à merenda escolar, não é apenas uma provocação. É um ataque à justiça da convivência cívica e à veracidade do debate público. A linguagem tem peso; palavras que evocam séculos de opressão e preconceito, especialmente quando dirigidas a grupos historicamente vulneráveis, desumanizam e fragmentam o tecido social. Não se pode pretender uma sociedade ordenada negando o peso da história, como ao afirmar que a discriminação “ficou no passado” sem reconhecer as feridas que ainda persistem e as estruturas que demandam retificação. A humildade de reconhecer a complexidade do real é um pré-requisito para qualquer proposta política séria.
Quando o foco recai sobre a família e o papel da mulher, as contradições se aprofundam. Fishback corretamente defende a proteção da vida humana desde a concepção, o que é um imperativo moral. No entanto, suas propostas de “encorajar mulheres a casarem e terem filhos cedo e com frequência” — embora o incentivo à natalidade seja um bem para a sociedade — vêm acompanhadas de medidas punitivas e de uma visão reducionista da mulher. A ideia de inviabilizar economicamente plataformas digitais com um “imposto do pecado” e a afirmação de que “as putas vão ter de pagar impostos” instrumentalizam a moralidade para justificar uma intrusão excessiva do Estado na vida privada, sem oferecer soluções construtivas ou respeitosas à dignidade da pessoa humana. A Doutrina Social da Igreja, desde Leão XIII, entende a família como sociedade primeira, anterior ao Estado, e defende uma liberdade ordenada, que não significa anomia, mas tampouco é sinônimo de coação moral estatal. O Estado pode e deve apoiar as famílias com recursos e políticas justas, mas não deve ditar as escolhas pessoais íntimas com um chicote tributário ou moral.
A mesma lógica se estende a outras áreas. Banhos em vistos de trabalho para profissionais qualificados, sob o pretexto de “tirar empregos dos americanos”, ignoram a complexidade de uma economia globalizada e a contribuição de talentos que enriquecem a vida comum. A intervenção em currículos escolares para “combater narrativas” pode rapidamente descambar para uma doutrinação ideológica, esmagando a autonomia de pais e educadores e a livre busca do conhecimento, ferindo o princípio da subsidiariedade que exorta a fortalecer os corpos intermédios da sociedade, não a aniquilá-los em nome de uma agenda estatal. Pio XI, ao criticar a estatolatria, advertia para o perigo de um Estado que se arvora o direito de definir e moldar a totalidade da vida social e individual.
Aqui, o Chesterton viria a calhar para apontar a “loucura lógica” de quem grita por “liberdade” enquanto amarra os indivíduos com os grilhões do Estado moralista que ele próprio projeta. Não se trata de um genuíno desmantelamento da burocracia, mas da substituição de uma burocracia por outra, mais invasiva e seletiva em seus alvos. A liberdade autêntica é, antes de tudo, uma questão de justiça: reconhecer o direito do outro, inclusive em suas escolhas legítimas que não atentam contra a lei natural ou a ordem pública. Ela floresce na responsabilidade individual e nas associações livres, não na coerção de um governo que se arroga o direito de ser o tutor moral e econômico de cada cidadão.
No fim das contas, a proposta de Fishback, em sua aparente radicalidade, falha em construir uma ordem justa e verdadeiramente livre. Ao invés de edificar sobre a justiça e a humildade, ergue uma estrutura de intervenção estatal seletiva, que prega uma liberdade apenas para aqueles que se encaixam em seu projeto moral, e uma opressão fiscal e retórica para os que dele discordam. Uma visão assim, por mais bem intencionada que possa parecer em alguns pontos, é uma receita para a divisão e para a confusão, não para a vida cívica que busca a verdade e a paz. A verdadeira liberdade não reside na imposição de uma moral pela força da lei, mas na virtude que floresce em uma sociedade onde a verdade é buscada e o direito de todos, do feto à mãe, do cidadão ao imigrante, é reconhecido e protegido.
Fonte original: Folha de S.Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.