Atualizando...

Feira de Santana: Governo Participativo e Manobra Eleitoral

O Programa de Governo Participativo em Feira de Santana vira palco de manobra eleitoral. Analisamos como a escuta popular disfarça estratégia partidária, esvaziando a verdadeira participação cidadã na Bahia.

🟢 Análise

A ideia de “governo participativo” ecoa uma melodia sedutora nos tempos modernos. Quem ousaria negar a virtude da escuta atenta, do diálogo com o povo, da construção conjunta de políticas públicas? No entanto, há melodias que encobrem o ruído de martelos políticos, disfarçando uma estratégia de poder sob o manto da participação cívica. O que se viu em Feira de Santana, no recente encontro do Programa de Governo Participativo (PGP 2026), não foi primariamente uma assembleia popular, mas uma demonstração de força partidária, onde a máquina governamental do estado da Bahia se fez presente com seu governador, seu vice, uma plêiade de deputados e mais de vinte prefeitos, todos mobilizados sob a bandeira de uma “escuta” que, no contexto, soa mais como pregação.

É inegável que o diálogo entre governantes e governados é um pilar da boa ordem política. Não se pode, de saída, desqualificar qualquer iniciativa que se proponha a ouvir as bases, a identificar demandas regionais e a construir um futuro para o estado. Anúncios como a construção de um novo hospital de câncer em Feira de Santana são, em si, bens desejáveis, e a presença do chefe do Executivo em um polo regional como Feira é um direito e, muitas vezes, um dever de prestação de contas. A questão, contudo, não reside na legitimidade formal do programa, mas na veracidade de sua intenção e na integridade de sua execução. Quando o programa se desdobra em um calendário eleitoral evidente, com pouco mais de um ano para as eleições, e a “escuta popular” é quase inteiramente preenchida pela voz de prefeitos e lideranças políticas já alinhadas, o que se escuta, de fato, é o eco da própria base governista.

Aqui emerge uma tensão central entre o princípio da subsidiariedade e a tentação da estatolatria. A doutrina social da Igreja ensina que as comunidades maiores não devem absorver as funções das menores, mas apoiá-las em sua autonomia. Quando o Estado, em vez de fomentar a participação genuína de corpos intermediários e da sociedade civil, orquestra uma “participação” que se assemelha mais a uma adesão forçada ou a um desfile de prestígio, ele não fortalece o povo, mas o massifica. Não é a escuta do cidadão comum, do empreendedor local, do professor, do líder comunitário independente que predomina, mas a reafirmação de uma lealdade política sob o pálio das benesses estatais. O risco é o de converter a necessidade do povo em matéria-prima para a retórica da campanha, confundindo a administração da coisa pública com a consolidação de um projeto de poder.

O anúncio de um hospital de câncer em Feira de Santana, embora soe como uma benfeitoria urgente, ganha um matiz distinto quando feito neste cenário. A justiça exige que a gestão dos recursos públicos e a definição de prioridades na saúde e infraestrutura sejam fruto de planejamento técnico sério, transparente e desvinculado de calendários eleitorais. Se uma obra dessa magnitude surge em meio a uma “plenária participativa” que tem forte sabor de pré-campanha, a promessa pode ser percebida menos como um dever cumprido e mais como um capital político a ser cobrado. Isso não só mina a confiança pública na gestão, como também esvazia o próprio mérito da iniciativa, transformando uma necessidade real da população em um ponto de pauta para palanque.

É preciso, como Chesterton nos ensinou em sua defesa da sanidade contra a loucura lógica das ideologias, ter a clareza de distinguir o que é um dever de Estado e o que é uma manobra de partido. A premissa de que “tudo é político” não autoriza que toda ação do governo se confunda com a pré-campanha eleitoral. O cidadão tem o direito de exigir que a máquina pública, financiada por seus impostos, opere com honestidade e transparência, servindo ao propósito para o qual foi instituída: o bem-estar da comunidade, e não a perpetuação de um grupo no poder. A real participação não se constrói com a adesão de prefeitos coagidos por laços de dependência, mas com a liberdade de expressão de cada voz, sem a sombra de futuros favores ou retaliações.

O desafio, portanto, não é abolir a participação ou silenciar os governantes, mas restituir à ação pública sua pureza de intenção. A governança participativa é uma dádiva quando edifica o corpo social, não quando o manipula. O governador que busca a magnanimidade de um projeto de longo prazo para a Bahia não precisa mascarar sua agenda política como escuta democrática. Basta-lhe governar com justiça e verdade, distinguindo o que pertence à administração do que é próprio da disputa eleitoral. Pois o povo, que não é massa, tem a inteligência para discernir o chamado sincero do mero aceno eleitoral.

Fonte original: Jornal Grande Bahia (JGB)

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

Artigos Relacionados