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Reforma em Feira: Praça Caminho 16 sem Diálogo Comunitário

A reforma da Praça do Caminho 16 em Feira de Santana, apesar de bem-intencionada, carece de transparência e consulta pública. Analisamos o impacto da opacidade na gestão municipal e a importância da participação cidadã.

🟢 Análise

A praça, para qualquer bairro que se preze, não é apenas um punhado de bancos e um canteiro de flores; é o coração da vida comum, a sala de estar sem paredes onde o tempo se alonga, onde as crianças descobrem o mundo e os idosos revisitam a memória. Anunciar a reforma de um desses espaços, como a Praça do Caminho 16 no bairro Tomba em Feira de Santana, é, em princípio, saudar um passo rumo à requalificação do ambiente urbano. A intenção de melhorar a estrutura, ampliar a segurança e oferecer mais conforto, conforme os dignos objetivos do prefeito José Ronaldo e sua equipe, é louvável e está em consonância com o zelo que se espera da autoridade pública pelos bens que servem a todos.

No entanto, a virtude de uma obra não reside apenas em seu propósito, mas, sobretudo, em sua execução. E é aqui que o silêncio burocrático, mais ensurdecedor que qualquer martelo de pedreiro, levanta uma nuvem de interrogações. Não há orçamento divulgado, nem prazo estimado para a conclusão, tampouco a especificação do órgão ou empresa responsável pela empreitada. Mais grave ainda é a ausência de qualquer indício sobre a origem da demanda ou de um processo genuíno de consulta pública que tivesse ancorado a iniciativa nas prioridades reais da comunidade. Uma obra que se pretende comum não pode nascer em segredo ou ser imposta de cima para baixo.

Essa opacidade não é mera falha administrativa; é uma ferida na carne da justiça. O princípio da subsidiariedade, pilar da Doutrina Social da Igreja, ensina que a sociedade maior não deve subtrair às sociedades menores o que estas podem realizar por si mesmas, mas, antes, ajudá-las. A praça do Caminho 16 é um espaço que respira a vida de seus moradores. Decidir sobre sua requalificação sem um diálogo franco com aqueles que a habitam diariamente, sem lhes dar voz ativa no planejamento, é tratar o povo como massa, e não como corpo vivo e atuante. É um paternalismo urbano que, por mais bem-intencionado que se queira, usurpa a responsabilidade cívica e atrofia a participação.

A “recuperação estrutural” e a “correção de desgastes provocados pelo uso contínuo”, mencionadas como justificativas para a intervenção, revelam também a necessidade de uma gestão que olhe para além do ciclo eleitoral. A ausência de um plano de manutenção de longo prazo, construído com a comunidade, prenuncia que os mesmos desgastes retornarão, transformando a reforma atual num dispendioso paliativo. A praça não é um mero artefato a ser consertado de tempos em tempos, mas um organismo que exige cuidado constante e compartilhado, uma responsabilidade que transcende a caneta do prefeito e se espalha pelas mãos dos vizinhos.

Quando a administração municipal, em vez de se apresentar como facilitadora, assume ares de proprietária absoluta da informação e da decisão, corre o risco de transformar um ato de serviço público em um espetáculo de autoproclamação. A reforma da praça, então, deixa de ser um gesto de dedicação ao bem comum para se converter numa oportunidade de visibilidade política. A honestidade da ação pública exige clareza sobre os custos que os contribuintes arcarão e sobre os critérios que justificaram a priorização daquele espaço em detrimento de tantas outras urgências em Feira de Santana.

A verdadeira requalificação de um espaço público vai além da poda de árvores ou da instalação de novos bancos. Ela se dá quando a intervenção é fruto de uma escuta atenta, de uma generosidade que compartilha informações e de uma humildade que reconhece no cidadão um parceiro, não um mero beneficiário passivo. Fortalecer os “corpos intermediários” da sociedade, como a comunidade do Caminho 16, com canais de diálogo e de controle, é a única via para que a beleza da praça não seja apenas estética, mas também moral.

Uma reforma da praça, quando carente de transparência e participação, não se edifica sobre a rocha da confiança, mas sobre o movediço terreno da dúvida. A autorização para o início da obra pode ser um fato, mas a autoridade moral da gestão só se consolida quando a praça, em sua renovação, reflete a verdade de um processo justo e a voz de um povo que a chama de sua.

Fonte original: Jornal Grande Bahia (JGB)

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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