Quando o templo vira comitê, e o púlpito, palanque, a fé corre o risco de ser reduzida a uma mera ferramenta política. O cenário político brasileiro, em suas últimas décadas, tornou-se um terreno fértil para essa confusão de esferas, onde a crescente influência do eleitorado evangélico, em particular, desvela as intrincadas dinâmicas entre grupos religiosos e o poder secular. Se é verdade que a ideia de um “voto religioso” homogêneo é uma generalização simplista, pois evangélicos, católicos e adeptos de religiões de matriz africana, como qualquer cidadão, consideram critérios econômicos e sociais ao votar, é igualmente inegável que se consolidaram hegemonias de posicionamento político que, na prática, operam com uma coerência e um vetor direcional capazes de influenciar decisivamente o tabuleiro eleitoral.
Os dados confirmam a inclinação majoritária de parte do eleitorado evangélico por candidaturas identificadas com a direita, ancoradas em pautas morais e de costumes. Vimos o número de candidatos com títulos religiosos no nome de urna crescer 16% entre 2018 e 2022, evidenciando uma estratégia deliberada de capitalização da identidade religiosa. Lideranças exercem influência, construindo narrativas — como a de que “ser cristão era ser de direita e era ser bolsonarista” — que se tornam “muito difíceis de quebrar”, como atestam os pesquisadores. Essa hegemonia, por mais que não represente uma uniformidade absoluta de consciências individuais, produz um efeito coletivo que, para todos os fins práticos da política, funciona como um bloco poderoso e previsível em momentos cruciais. É um comportamento que, ainda que internamente matizado, oferece aos estrategistas políticos um alvo bem definido e uma força eleitoral de peso.
A Doutrina Social da Igreja Católica, nesse contexto, oferece um baluarte contra a instrumentalização da fé. Fundada na Realeza Social de Cristo, ela propõe princípios como o bem da cidade, a justiça social e a subsidiariedade para orientar a ação política e o discernimento dos fiéis, jamais uma vinculação a partidos ou candidaturas específicas. Em outras palavras, a Igreja ensina valores, não nomes. O padre Abimael Nascimento e o pastor Tiago Albuquerque, em suas observações, ecoam essa distinção: a igreja deve ser “cabo do Reino”, não “cabo eleitoral”. A liberdade de consciência, pilar da dignidade humana, é corrompida quando a fé se converte em moeda de troca ou em salvo-conduto para um projeto político mundano. O “ser cristão” não pode ser reduzido a um carimbo partidário; essa seria uma forma moderna de estatolatria, ou, pior, de partidolatria, que Pio XI já denunciava como desvio do reto amor a Cristo Rei.
A assimetria de poder entre líderes e fiéis é notável. Relatos de “crises de consciência” e o ostracismo social sofrido por aqueles que discordam das hegemonias impostas revelam que a tão defendida “não-homogeneidade” na prática tem seu espaço de expressão severamente cerceado. Não se trata apenas de nuances, mas de uma pressão que chega a ser coercitiva, testando a fortaleza dos fiéis em se manterem íntegros diante de uma fé deturpada. Enquanto isso, religiões de matriz africana, alvos simbólicos de discursos de ódio e preconceito, continuam a sofrer invisibilização, paradoxalmente utilizadas para cimentar a coesão ideológica de outros grupos, em uma lamentável inversão da caridade e da justiça.
A urgência, portanto, não está apenas em desconstruir a ideia de um “voto homogêneo”, mas em confrontar a eficácia e a escala das estratégias políticas que instrumentalizam a identidade religiosa. Se a hegemonia é tão “difícil de ser quebrada” e gera tamanhas pressões, o espaço para a autonomia individual no ambiente de decisão do voto é mais tênue do que se gostaria de admitir. A tarefa dos cristãos, de todas as denominações, é exercer a virtude da veracidade e da honestidade, recusando-se a misturar o que é de Deus com o que é de César de forma indevida, mantendo-se firmes na fortaleza da fé contra as tentações do poder efêmero. A busca pela paz social e pela ordem justa não pode ser construída sobre a manipulação da consciência ou a instrumentalização do sagrado.
Que a Igreja, guardiã da verdade, e os fiéis, buscando a fortaleza em Cristo, jamais permitam que a bússola da fé seja desorientada pelos ventos transitórios do poder político.
Fonte original: O POVO Mais
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.