A fé, quando legítima, move montanhas e consciências. Mas quando confundida com a bandeira de um partido ou com o cálculo mesquinho das urnas, arrisca-se a mover apenas o tapete da sacristia para debaixo da mesa da burocracia. O recente fervor religioso na política brasileira, notadamente o avanço do eleitorado evangélico para candidaturas de direita, e o consequente aumento de parlamentares com títulos eclesiásticos no nome, revela uma tensão fundamental: como o templo pode iluminar a praça sem se tornar um comitê, e como a praça pode receber essa luz sem tentar domesticá-la para seus próprios fins?
Essa inclinação majoritária, que molda pautas morais e de costumes, trouxe para dentro das comunidades de fé uma polarização que, como testemunhado por Ileane de Oliveira Fernandes em sua igreja batista, levou a rupturas de amizade e crises de consciência. O relato anônimo do professor, que viu seu pastor transformar o púlpito em tribuna partidária, a ponto de afastar fiéis, não é um caso isolado. Ele expõe a fragilidade da unidade e do propósito espiritual quando lealdades partidárias suplantam a mensagem eterna, transformando a legítima inspiração cívica em coação velada. A observação do Pastor Tiago Albuquerque, de que a igreja deve pregar valores, não nomes, soa como um grito de veracidade em meio à cacofonia eleitoral.
No campo católico, a Doutrina Social da Igreja, com seus princípios perenes de justiça e bem comum, oferece uma bússola, não um mapa eleitoral fechado. Ela orienta a consciência individual para a ação política, mas não endossa candidaturas. A divisão histórica entre vertentes mais à esquerda, como a Teologia da Libertação, e correntes conservadoras, como a Renovação Carismática, reflete a liberdade de discernimento prudencial em matérias não dogmáticas. O avanço do bolsonarismo em setores católicos mais conservadores, evidenciado por pesquisas, não anula o fato de que a fé católica é um princípio de unidade em Cristo, e não uma ferramenta para ideologias partidárias, sejam elas de direita ou de esquerda. Pio XI, em sua crítica à estatolatria, já advertia contra a absorção da esfera religiosa pelo poder temporal.
A assimetria de poder, onde certas lideranças usam sua autoridade espiritual para moldar identidades políticas e estabelecer “ortodoxias” partidárias, é uma preocupação grave. Isso não só limita a liberdade de consciência dos fiéis, como marginaliza e estigmatiza grupos religiosos minoritários. As religiões de matriz africana, por exemplo, que representam 1% da população brasileira, enfrentam a ausência de representação qualificada e são, por vezes, alvo de discursos preconceituosos que mobilizam o medo. A luta de Mãe Gardênia d’Iansã e de tantos terreiros por respeito e visibilidade é um apelo à justiça fundamental que deve caracterizar uma sociedade plural.
O paradoxo moderno é que a fé, feita para elevar o homem e uni-lo em caridade, acaba instrumentalizada para fragmentar a sociedade. Chesterton, com sua sanidade mordaz, certamente apontaria a ironia de se buscar a salvação da nação a troco da divisão da alma. A religião é, sim, uma dimensão essencial da identidade humana e, como tal, informa as escolhas políticas. Mas ela não é um disfarce para o proselitismo partidário, nem um argumento para silenciar a dissidência interna. A função da liderança religiosa é formar a consciência para a verdade, para o bem, para o justo, não para a conveniência eleitoral.
A Igreja é “cabo do Reino”, como bem disse o pastor Tiago Albuquerque, e não cabo eleitoral de qualquer facção. A Doutrina Social não entrega um partido pronto, mas princípios para a construção de uma ordem justa. O desafio da hora é discernir onde termina a inspiração da fé e onde começa a instrumentalização política, para que não se troque a eternidade por um mandato, nem a comunhão por um voto.
A verdadeira força de uma fé na arena pública não reside na hegemonia numérica ou no alinhamento partidário, mas na integridade de sua mensagem e na liberdade de consciência que ela promove.
Fonte original: O POVO Mais
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.