A arena pública, por vezes, mais se assemelha a um teatro de sombras do que a um fórum de debate, onde a verdade, em vez de ser buscada na luz, é obscurecida por projeções e sussurros calculados. A recente denúncia do ex-presidente boliviano Evo Morales, ecoando um suposto plano para sua detenção ou assassinato orquestrado por potências estrangeiras e pelo governo local, é um desses momentos em que a linha entre o fato e a fantasia se desfaz sob o peso da retórica. Morales acusa nominalmente os Estados Unidos, o Comando Sul, a DEA, além de figuras bolivianas e argentinas, de orquestrarem uma “guerra suja” e uma operação militar no Trópico de Cochabamba, prometendo promoções a generais em troca de sua “remoção”.
Não se pode ignorar o histórico complexo de intervenções externas na América Latina, nem a brutalidade de conflitos políticos que, por vezes, infelizmente resultam em violência física e perseguição. Há uma preocupação legítima com a instrumentalização das forças armadas para fins políticos e com as campanhas de desinformação que envenenam o debate público. Todavia, a gravidade de uma denúncia de plano de assassinato exige a substância do real, a solidez de provas irrefutáveis, e não apenas a ressonância de uma figura política que, por sua própria trajetória e agenda, beneficia-se da narrativa de perseguição.
O que se tem, no entanto, é a ausência quase total de qualquer verificação independente. A denúncia, veiculada por redes sociais e por um veículo de imprensa de claro alinhamento político, não apresenta uma única evidência concreta, testemunho imparcial ou documento comprobatório. As acusações pairam no ar como fumaça, designando “unidades militares já no Trópico”, “agentes estrangeiros” e mesmo um “governo de Rodrigo Paz” – figura que, vale notar, não ocupa a presidência da Bolívia. A falta de rigor na apresentação de tais fatos, a mistura de acusações genéricas com nomes específicos sem suporte, não serve à causa da verdade; serve, antes, a um propósito bem distinto.
A Doutrina Social da Igreja, especialmente pelas lentes de Pio XII, sempre distinguiu o “povo” da “massa”. O povo, enquanto comunidade orgânica e capaz de discernimento, busca a verdade e a ordem; a massa, amorfa e manipulável, é suscetível ao apelo da paixão e do boato. Uma denúncia sem provas, de tal envergadura, que busca inflamar ânimos e descreditar instituições sem a devida fundamentação, não se dirige ao povo, mas à massa. Ela corrói a veracidade necessária à comunicação responsável e à formação de um juízo reto, virtudes essenciais para a saúde da vida cívica. Ao invés de edificar a justiça através da clareza e da exposição dos fatos, semeia a discórdia e a desconfiança generalizada.
Chesterton, com sua perspicácia para desmascarar as “loucuras lógicas” da modernidade, talvez diria que a ideologia, quando descolada da realidade concreta, tem a capacidade peculiar de construir palácios de acusação sobre o nada, acreditando que a intensidade da própria voz pode substituir a evidência. Quando a ambição política prevalece sobre a humildade de se curvar aos fatos, a verdade se torna uma moeda de troca, e a justiça é desvirtuada para servir a agendas partidárias, transformando-se de alicerce em arma.
O custo de tal conduta é a fragilização da própria democracia e da ordem pública. Quando qualquer ator político pode, a bel-prazer, lançar acusações de golpe e assassinato sem lastro, o valor da palavra se esvazia, e a capacidade de discernimento do cidadão comum é posta à prova de modo irresponsável. O debate sério, a investigação dos abusos reais e a busca por soluções para os conflitos sociais são soterrados sob uma avalanche de retórica que confunde o inimigo político com o conspirador e o adversário com o criminoso. O verdadeiro governante de um país busca a justiça não nas sombras da intriga, mas na luz do dever, da lei e da evidência.
O que fica, no rastro de tais denúncias infundadas, não é a luz da revelação, mas a neblina da incerteza e a suspeita generalizada, um ambiente onde a justiça e a veracidade, em vez de pilares da vida pública, tornam-se meros ornamentos retóricos. Para edificar uma ordem social que preze pela dignidade de cada pessoa e pela paz, é preciso que a palavra dada seja respeitada e que as acusações lançadas sejam tão sólidas quanto os fatos que as geram.
Fonte original: Diário Causa Operária
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.