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EUA: Terrorismo, Cartéis e a Fissura Conceitual

A nova estratégia antiterrorismo dos EUA cria uma fissura conceitual: cartéis e dissidência viram 'terrorismo'. Analisamos os riscos a soberania e Doutrina Social da Igreja.

🟢 Análise

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou uma nova estratégia nacional antiterrorismo, estabelecendo como prioridade o combate aos cartéis de drogas no Hemisfério Ocidental. A perigosa fissura surge quando o próprio conceito de “terrorismo”, que deveria designar a violência política calculada para aterrorizar populações e subverter a ordem, é esticado ao ponto de abraçar não só grupos jihadistas e organizações criminosas, mas também a vaguidão de “grupos políticos seculares violentos com ideologia antiamericana, radicalmente pró-transgênero ou anarquista”. Mais que uma estratégia, é uma metamorfose conceitual que turva as distinções fundamentais entre a guerra, o crime e a legítima dissidência, abrindo um precedente inquietante para a repressão.

Não se pode, em sã consciência, negar a devastação provocada pelos cartéis de drogas, cujo rastro de morte e desestabilização é uma chaga social inegável. A proteção dos cidadãos contra essa virulência é um dever primordial de qualquer governo. Contudo, a militarização de um problema que possui raízes intrincadas em questões socioeconômicas, de saúde pública e de ordem legal, é um atalho que, via de regra, leva a becos sem saída. As mortes de 191 pessoas em “supostas embarcações ligadas ao tráfico” exigem um escrutínio rigoroso, não apenas investigativo, mas moral, sobre a proporcionalidade dos meios e o respeito à dignidade da pessoa humana, mesmo em face de criminosos. Uma guerra, para ser justa, conforme o Magistério da Igreja, exige uma causa que seja realmente justa, intenção reta, meios lícitos e estrita proporcionalidade, algo que a mera redefinição unilateral de “inimigo” não pode conferir.

A Doutrina Social da Igreja, desde Pio XI, adverte contra os perigos da estatolatria – a adoração ou o inchaço desmesurado do poder estatal. Essa advertência é duplamente pertinente quando tal poder é exercido de forma unilateral por uma nação sobre outras, sob o pretexto de uma “segurança” que flexiona suas próprias definições. A soberania das nações, especialmente as mais vulneráveis, não pode ser condicionada à submissão irrestrita aos desígnios de uma potência estrangeira, cujos interesses podem não coincidir com o bem comum local. A justiça exige que a cooperação internacional seja balizada pelo respeito mútuo, pelo princípio da subsidiariedade – fortalecendo as capacidades locais em vez de as esmagar – e pela solidariedade, não pela coerção. É preciso honestidade para reconhecer que o narcotráfico, em sua complexidade, demanda respostas multifacetadas, que transcendem a mera interdição militar e alcançam o desenvolvimento humano e a saúde pública.

Poderíamos, aqui, imaginar um Chesterton a gargalhar com amargor: a equiparação de movimentos “radicalmente pró-transgênero ou anarquistas” a grupos terroristas tradicionais é o ápice da loucura lógica, uma razão que se enlouquece ao distorcer o real. É a sanidade que nos impele a distinguir entre o dissenso ideológico, por mais extremo que se afigure, e a violência política que emprega o terror como método. Confundir um com o outro não apenas banaliza a natureza do terrorismo, desviando recursos de ameaças reais, mas abre perigosas portas à criminalização arbitrária de qualquer voz dissonante, minando os fundamentos da liberdade ordenada.

Essa ampliação conceitual não fortalece a segurança, mas fragiliza a paz e a estabilidade regional. Ao alargar o espectro do “inimigo” sem discernimento, dilui-se a capacidade de focar nas ameaças concretas e minam-se os alicerces da cooperação legítima e do direito internacional. O resultado prático pode ser uma erosão da confiança entre as nações, um aumento da violência e a criação de um precedente danoso para intervenções arbitrárias, muitas vezes com objetivos que pouco têm a ver com o terrorismo. A “guerra cultural legítima”, de que nos fala o corpus católico, jamais significa usar a força militar para silenciar ideologias, por mais distorcidas ou preocupantes que pareçam.

A verdadeira segurança para o Hemisfério Ocidental não se edifica sobre definições elásticas e operações militares unilaterais. Ela brota da ordem justa, do respeito à soberania das nações, da subsidiariedade no auxílio mútuo e da veracidade na palavra e na ação. A estratégia deve ser um farol de discernimento, e não uma espada que, ao perder o foco, fere os inocentes e desestabiliza a paz sob o pretexto de uma segurança que se torna sua própria contradição.

Fonte original: R7 Notícias

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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